segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ironman 70.3 – E o vento quase levou...

O cara da foto aí ao lado sou eu. E ele estava com pressa, muita pressa...

A chamada T1 do triathlon, transição entre a água e o ciclismo possui uma logística um pouco mais elaborada que a T2 no que se refere à troca de equipamentos. Tirar todos os equipamentos de natação e se preparar para uma etapa de bicicleta não é tão simples quanto parece, e organização é a palavra chave. Deixei tudo pronto, inclusive para ser retirado de dentro da sacola na mesma sequência de “instalação”, mas mesmo assim uma peça ou outra dá trabalho. A bicicleta deve ser retirada do cavalete e empurrada até a área de montagem, geralmente uma faixa no chão supervisionada pelo staff. Deste ponto em diante, é pedalar o melhor possível, e no caso do Ironman 70.3, serão 90 Km pela estrada que liga a BR-101 ao Parque Beto Carrero World, conhecida como Transbeto.

Após um pequeno trecho plano de cidade em Balneário de Penha, toma-se o rumo em direção à BR-101, com trechos em média de 14 Km de extensão, totalizando 3 voltas de 30 Km. Com algumas subidas quase imperceptíveis de carro, mas que no pedal dão bastante diferença de velocidade, a estrada não é das mais fáceis, porém gerenciável. Como já expliquei antes, minha bike é uma Caloi 10, um equipamento bem improvável para este tipo de competição, mas eu parti do princípio que o mais importante é o atleta, e não apenas o equipamento. Se eu tivesse uma Cervèlo de 20 mil reais não ia adiantar muita coisa, não tenho perfil de atleta de ponta. Bom, ponta de estoque, talvez.

Nesta etapa, que é a mais longa nas provas de triathlon, o tempo de corte era de 5 horas após o início da competição, ou seja, eu tinha praticamente 4 horas para completar o percurso. Pretendia manter a velocidade média de 30 Km/h, que havia sido minha velocidade de treinos, porém estes haviam sido feitos com pouca variação altimétrica. Eu sabia que no dia da prova aceleraria um pouco mais que nos treinos, por isto estava confiante que teria o tempo suficiente da etapa. Se não entregasse a bicicleta na T2 até 14:30, game over, seria convidado a me retirar do evento. Isto seria a humilhação máxima, especialmente por estar com uma bike mais simples, e eu não queria de maneira alguma terminar assim.

Percebi logo de cara que a velocidade média poderia ser mantida em torno de 35 Km/h, graças aos retões e descidas, caindo apenas um pouco nas subidas. A hidratação neste trecho da prova é feita através da distribuição de Gatorade em sports bottle e água em caramanholas (squeezes) o que facilita muito para o ciclista. Deixei propositalmente um porta-garrafinhas livre na bicicleta, já levando minha hidratação nos outros duas garrafas posicionadas na parte traseira. Como gel de carboidrato não é minha refeição predileta, deixei algumas bisnaguinhas e doces em uma bolsinha no quadro, o que deu muito certo. Apenas errei em levar bomba e uma ferramenta junto, pois existe na prova um serviço de mecânicos que transitam o tempo todo para solucionar problemas nas bikes, ou seja, peso extra no meu conjunto.

Uma volta, duas voltas e tudo ia melhor que o planejado, porém quando cheguei ao Km 70 na terceira volta, constatei algo que havia lido nas reportagens sobre a prova: fortes ventos atingem a região no horário próximo ao meio dia. Dito e feito, uma ventania danada, quando não me arrastava para trás diminuindo a velocidade e obrigando a pisar forte, jogava a bicicleta de um lado para o outro da pista, exigindo um controle danado. Até um arbusto foi arremessado na minha direção, deixando de presente um pedaço de plástico na roda. Ou seja, stress, e energia gasta com stress é energia assim mesmo. O jeito foi apertar para valer, martelar mesmo o pedal, ou como diz aquele hit dos anos 90, “hammer time!”.

Peraí, perseguido por um cachorro em pleno Ironman?

Existe ao longo da rodovia uma comunidade bem humilde, que no dia da prova sai de casa para assistir a competição. A garotada fica próxima dos postos de hidratação repetindo o mantra “tio, dá uma garrafinha!” para que os atletas arremessem seus squeezes de água ou Gatorade para que eles possam, sei lá, colecionar. No começo achei engraçado, depois, especialmente na hora do stress, passou a encher o saco. Afinal, a garotada não respeitava quem estava ali já cansado com aquela ventania toda e tentando se concentrar na prova.

Para completar, ao passar por um grupo do “tio, dá uma garrafinha!” eu até pensei em lançar uma sobressalente de água distribuída no último posto, só que paciência com o vento e os moleques estava no limite. Para completar, um cachorro saiu correndo atrás da minha roda, grunhindo, o que talvez na língua dos cães fosse “tio, dá uma garrafinha!”. Dito e feito, p... da vida, arremessei na direção do pulguento, não sei se acertou, mas parou de me perseguir. É, só acontece comigo mesmo!

Minha cabeça não parava de fazer contas de tempo X velocidade X distância que faltava, e eu quase pirei. Entreguei a bicicleta na T2 faltando menos de 12 minutos para o tempo limite! Ou seja, a vantagem da natação já tinha sido pulverizada, e se não tivesse acontecido, teria acabado ali mesmo a prova. Saí duro da bicicleta, cambaleando naquelas malditas sapatilhas até a T2, onde fui ao banheiro tirar o excesso de líquidos e calcei o tênis para a última etapa da prova.

Acessórios de corrida no lugar, o asfalto me espera. Estou em casa!

Aproveitando...

Se quiser saber um pouco mais sobre triathlon ou Ironman 70.3, a Revista The Finisher publicou matérias sobre os assuntos na edição deste mês. Vale a pena conferir.

E se quiser conhecer um pouco mais sobre como uma Caloi 10, que teoricamente pode ser comprada em supermercado, virou uma bicicleta de triathlon veja no Ciclovia Digital, onde dou detalhes da transformação.

E aí vem a última parte...Corrida, finalmente!


6 comentários:

  1. Parabéns pelo percurso, amigo ! Meu carinho e bons treinos.

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  2. Rinaldo tua historia esta lembrando o filme Jamaica Abaixo de Zero , ninguem acreditava na audacia dos rapazes, Parabens, eu ja dei uma "tunada" tambem em uma Caloi 10 ficou tão bonita que troquei por uma MTB que valia 3 x mais !!!

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    1. Pois é, só que agora, devidamente "tunada", eu não tenho mais coragem de vender ou trocar. Quem sabe algum dia ter uma um pouco mais invocada, mas depois desta loucura toda, duvido que consiga desapegar dela.

      Abraço!

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  3. Que legal!! Bom saber que não necessita-se de uma bike 1000% para participar de uma prova dessas... POis é justamente o que me impede de participar de um triathlon é o fato de eu não ter uma bike apropriada... mas tenho consciência tb de que não dá pra encarar uma prova dessas com uma modelo "tropical" que eu tenho rsrsrs Mas ainda chego lá!! Parabéns!!

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    1. Sim, nem 1000% de frescuras, nem 1000% de preço. É claro que quanto mais leve menos detonado você chega ao final, mas eu não tenho pretensões de tornar isto meu esporte de final de semana, então o custo não justifica a compra.

      Abraço!

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