quinta-feira, 19 de julho de 2018

Comrades Marathon 2018... os primeiros 45 Km


Domingo, 10 de Junho de 2018, 05:30 horas da manhã, Pietermaritzburg, África do Sul, temperatura próxima dos 5 graus Celsius. Em uma avenida à frente da sede da prefeitura da cidade, quase 20 mil atletas amadores e alguns poucos profissionais se aglomeravam aguardando o início da 93ª. Edição da Comrades Marathon. Neste ano a prova será em “descida”, chegando até a cidade de Durban, no litoral do Oceano Índico. A distância oficial é de 90.184 metros, um pouco mais que nas edições anteriores pois a novidade para este ano é finalizar no estádio Moses Mabhida, ao invés do tradicional estádio Kingsmead. Para se ter uma ideia, uma maratona tem a distância oficial de 42.195 metros, portanto esta prova equivale a 2 maratonas + 5.794 metros, em um mesmo dia, com pontos de corte ao longo do percurso e tempo máximo de conclusão de 11:59:59. Há um porém, este tempo não é considerado do momento que o corredor passa pelo tapete de cronometragem, mas sim a partir do tiro de largada, então cada segundo conta.



neste vídeo foi possível capturar a excitação da largada, 
com toda a sequência tradicional do início da prova

Uma vez que a prova exige a comprovação de tempo para validar a inscrição e definir o pelotão de largada do corredor, já dá para imaginar que ficar nas posições mais distantes do pórtico só vai trazer mais asfalto a ser percorrido. No meu caso, estava no pelotão F, ainda à frente do G e H, porém com tanta gente à minha frente que demorei 8 minutos para passar oficialmente pelo tapete, tempo que já estava sendo contabilizado no total. Cruel? Sim, não será um dia fácil, muitos guerreiros ficarão pelo caminho e cada um ali sabe a responsabilidade que tem. Ninguém os obrigou a estar naquela madrugada fria alinhados na largada, chegaram até ali por livre e espontânea vontade.

O termo “descida” para designar as edições que ocorrem nos anos pares é meramente ilustrativo, diz apenas que parte-se de uma cidade do interior e chega-se a uma cidade litorânea, onde naturalmente a elevação irá cair até o nível do mar. O percurso é uma montanha-russa de sobes e desces intermináveis, alguns com muitos
quilômetros, o que deixa os novatos pensando sobre se haviam comprado o produto correto na inscrição. Ainda escuro, e com alguns trechos um pouco mais afunilados, esta trupe vai se esbarrando e se ajudando como pode, diversos “sorry” são ouvidos, água é passada dos mais na ponta para os que estão no centro da massa de gente, tapinhas nas costas e muitos grupos correndo junto. Sem contar os “ônibus”, grupos guiados por corredores experientes, oficiais da prova, que guiam um grupo de atletas para a conclusão em um determinado tempo limite. Pontuais como coletivos urbanos, eles chegam a cada meia hora no destino, sempre com um corredor
Camperdown 2018-06-10 08.39 am
levando uma plaqueta com tempo previsto e o nome do atleta. Para quem consegue seguir o ritmo deles, ótimo, mas não é fácil, os “bus drivers” já sabem em que ponto diminuir o ritmo ou aumentar, e isto pode não ser muito compatível com sua estratégia de prova.

Comecei minha jornada no ritmo planejado, apesar de que não podia apertar muito devido ao pelotão compacto em que estava. Aqui no Brasil sempre se escuta um ou outro apressadinho gritando “abre! abre!” nas corridas, mas lá estavam todos gerenciando seu esforço. Passei o primeiro ponto de corte com o resultado abaixo:

Ponto: Lion Park
Distância:  15,57 km      
Tempo: 1:58:04
Tempo máximo: 02:30:00
Velocidade: 7:35 min/km


Veja que apesar da baixa velocidade para uma corrida, estava com uma folga de quase 32 minutos, o que precisava ser gerenciado ao longo do percurso. A prova seguiu, e o sobe e desce de montanhas, sempre asfaltadas, castigava o corpo incessantemente. Apesar de dificilmente alguém ser cortado neste primeiro ponto, nos demais a estória já é outra, pois será uma surra atrás da outra ao longo do trajeto, cada subida demanda esforço, e não pense que as descidas não causam estrago também.

Cato Ridge 2018-06-10 09.49 am
Com o dia já raiando, percebia-se que não seria muito ensolarado, mas possivelmente contrariando a previsão de tempo que havia dado o prognóstico de chuva no percurso. É interessante destacar que devido à prova acontecer nesta época do ano e a temperatura ser algo próximo do que seria na região Sul do Brasil, os corredores costumam largar com camadas extras de roupas, que são abandonadas ao longo do caminho e recolhidas pela organização para direcionamento à entidades assistenciais. Eu já havia descartado alguns itens, mas ainda estava com gorro de lã, luvas e uma camiseta que ficariam pelo caminho mais adiante.

Cheguei então ao próximo ponto de corte:

Ponto: Cato Ridge
Distância:  30,28 km      
Tempo: 3:40:14
Tempo máximo: 04:20:00
Velocidade: 7:17 min/km


Sim, eu estava 40 minutos adiantado, mas não é hora de euforia, afinal até aqui temos somente 1/3 da prova. Duras subidas irão bater de frente com os corredores neste trecho, pois nos dirigimos ao ponto mais alto do percurso, mais de 800 metros acima do nível do mar, o que é mais ou menos como estar na Av. Paulista.

Contando um pouco sobre a estrutura da prova, são mais de 40 mesas de hidratação espalhados pelos 90 Km, e não são mesinhas com água apenas: Coca-Cola, isotônico de vários sabores, batatas, doces e algumas ainda contam com equipe para aplicação de gel de
Inchanga 2018-06-10 10.43 am
arnica e massagem. É uma estrutura que muito corredor nem sonha que existe, um evento de proporções gigantescas. Eu diria apenas que a prova precisaria de mais banheiros químicos, mas muito corredor se arranjou nas moitas ao lado da rodovia mesmo.

Com a aproximação da metade da prova, uma subida pesada e longa se apresentou diante dos corredores, levando muitos a caminhar por longos períodos. Quando o atleta completa 10 edições da Comrades ele ganha o Green Number, e este número será sempre seu, sendo que a cada retorno à prova ele recebe o número de peito e costas na cor verde. Olhando ao meu redor eu via muitos Green Numbers andando, e esses caras sabem o que fazem.

Cheguei então à metade da prova:

Ponto: Drummond
Distância:  44,27 km      
Tempo: 5:22:48
Tempo máximo: 06:10:00
Velocidade: 7:18 min/km


Ainda muito adiantado em relação ao tempo de corte.

Mas já foi uma maratona, e agora?

Eu te conto em breve...

(as fotos que aparecem nesta postagem foram adquiridas no site Jetline Action Photo

                                               

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Comrades Marathon 2018... 90 Km. Sim, eu fiz!


Continuando o post anterior, agora você entende o motivo de correr 2 maratonas com apenas 2 semanas de intervalo. A insanidade nada mais era do que um treino para correr 2 maratonas + 6 Km de uma só vez, em um dia apenas, com pontos de corte apertados e com uma altimetria de dar medo a qualquer um. Como descrever em um humilde blog como este um evento tão grandioso como a Comrades Marathon? A prova acontece na África do Sul todos os anos desde 1921, com pausa apenas no período da II Guerra Mundial, sendo um ano em “descida” indo da cidade de Pietermaritzburg até Durban, e no seguinte ao contrário, em “subida”. Porém estes termos dizem respeito apenas a uma parte do perfil altimétrico, na verdade a corrida é recheada de subidas e descidas, o que esmigalha qualquer corpo humano, bem treinado ou não. Pois é, resumir em um post apenas é impossível, escrever um livro aqui neste espaço também não é ideal, então vamos sintetizar como foi esta experiência, e quem sabe eu te motivo a fazer o mesmo algum dia.

Dividirei este assunto em 3 postagens, assim consigo passar um conteúdo decente ao leitor. Vamos começar com as informações gerais do evento.

Vou me inscrever então, eeeba!

A prova possui um limite de participantes de aproximadamente 20.000 atletas, às vezes estendido por uma ou outra ocasião que justifique. A única distância é a completa, 87 Km em subida e 90 Km (antes 89) em descida. O Km extra neste ano foi devido à chegada no estádio Moses Mabhida, construído para a Copa do Mundo de Futebol de 2010, e que fica a alguns quarteirões da chegada anterior, o estádio de críquete Kingsmead. O processo de inscrição é muito simples, o site está totalmente em inglês, porém é necessário que o atleta apresente entre maio do ano da competição e agosto do ano anterior ao menos uma maratona ou outros eventos como ultras ou Ironman em tempos consideráveis, sendo que quanto melhor o tempo apresentado, melhor o posicionamento de largada. O tempo máximo que pode ser apresentado como comprovação é de 5 horas na maratona, porém isto coloca o corredor no último pelotão, e largar com 20.000 pessoas à sua frente não é fácil, pois a prova possui um tempo limite de 11:59:59 para conclusão, pontos de corte ao longo do percurso e o tempo é contado a partir do tiro de largada, e não da passagem pelo tapete de cronometragem.

pontos de corte do percurso

Ou seja, perder 10 a 15 minutos para passar pelo pórtico é tempo de prova, não descontado do tempo limite! O valor é um pouco salgado mas não é nenhum absurdo, o equivalente a uns USD 220, mas dada a estrutura da prova, é totalmente justificável. Geralmente abertas entre setembro e novembro do ano anterior à prova, as inscrições costumam esgotar no máximo em outubro. Como é que é, 20 mil inscritos para uma ultramaratona, e esgotam as inscrições? Sim, é isso mesmo.

Deve ser complicado para chegar lá...

Bom, você vai ter que cruzar o Oceano Atlântico. Pode parecer uma fortuna, porém se comprada com antecedência a passagem pode sair mais barato do que uma dentro da América do Sul. São 2 voos para ir e 2 para voltar no mínimo, do Brasil até Johanesburgo e de lá até Durban, mas mesmo assim um pouco de planejamento resolve a questão. Lembre-se, como as inscrições encerram relativamente rápido, não há motivos para deixar a passagem para a última hora.

E aonde eu fico?

Durban é uma joia às margens do Oceano Índico, portanto uma cidade turística com excelentes opções de hotéis. Já Pietermartizburg não possui este apelo, portanto com opções de hospedagem mais restritas. Ficar em Durban e ir para a Maritzburg (como o povo de lá mesmo se refere à outra cidade) é a melhor opção, mesmo que a prova parte desta, pois ônibus da própria organização levam os corredores até a largada. Agências de turismo aqui do Brasil operam com pacotes onde é possível contratar os dias de hospedagem em uma e passar a noite na cidade de largada hospedado em um hotel. Mas se você pensa que vai dormir na véspera, pode esquecer, a tensão é alta...

A feirinha... feirinha nada, aquilo sim é “feira”!

Tem coisa mais enfadonha do que pegar kit de prova aqui no Brasil? No geral o máximo que se tem de boas recordações é encontrar os colegas, mas sem muito o que fazer. Lá, a estória é outra. Começa com o atendimento separado para os estrangeiros, sempre muito bem recebidos pelos sul-africanos, especialmente se você for brasileiro. Tudo rápido, organizado, e um kit recheado de brindes. O chip de cronometragem deve ser comprado, e mesmo que você não tenha um ainda, na própria inscrição já é possível fazer o pagamento e adquirir, sendo que ele é usado não só na Comrades, mas em outras provas da África do Sul.



Depois de pegar o kit, você vai ter um pavilhão inteiro com estandes de roupas, corridas no país, novidades do mundo running, souvenires, praça de alimentação, espaço de palestras e uma gigantesca loja da marca esportiva que estiver patrocinando a corrida com diversas peças de roupa com o logotipo do evento. Leve um “trocadinho” para gastar nesta feira, você não vai resistir, mas contenha-se em ficar batendo perna durante horas pois você terá um longo caminho no dia da corrida.




O Museu da Comrades

Você leu direito, a prova é um patrimônio nacional, tem até mesmo uma espécie de museu, com diversos artefatos doados pelos campeões, painéis, uma maquete interativa do percurso e muita, muita história registrada. Fica em Pietermaritzburg, vale a pena conhecer.





A noite que antecede o evento

Faça o que você tiver que fazer, mas acredite, você vai dormir pouco. É claro que você não vai passar a noite em um dos cassinos da África do Sul, mas pode esquecer que sono você não vai ter. A largada é às 05:30 pontualmente, então o mínimo que você vai ter que acordar é lá pelas 03:00, supondo que você está dormindo na cidade de largada. E o nervosismo, você acha mesmo que consegue pregar os olhos? Vai por mim, tente descansar o máximo que puder quando tiver um tempo.

E agora, deixo você no suspense, na próxima postagem vou contar como é enfrentar 90 Km de estrada, cruzar montanhas, passar o dia a base de gel de carboidrato e outras pequenas porções de alimentos, beber muita água, isotônico e Coca-Cola, tudo isso para percorrer sobre as próprias pernas a distância entre duas cidades na África do Sul...