sábado, 5 de julho de 2014

Ironman Florianópolis 2014: parte 3, a corrida

Ou melhor: a Maratona! A logística toda do triathlon, as transições, a mudança de uma modalidade para outra, tudo isto já é bem desgastante, agora imagine ter pela sua frente os temidos 42.195 metros (vulgos 42K) de uma maratona. Seu dia começou lá atrás, acordou às 04:00 da manhã, chegou ao local da prova perto das 05:30, largou às 07:00, já nadou 3,8 Km e pedalou 180 Km. Mas para acabar bonito, precisa enfrentar o último “monstro” do dia.

E lá estava eu na T2, em muitos momentos do treinos imaginava que não veria aquela tenda de troca e pegaria minha sacola, pois como disse antes, muita coisa pode dar errado na etapa do ciclismo. Felizmente poucas situações foram preocupantes, sendo a única “baixa” as minhas costas que doíam pra valer. Assumo o erro, foi posicionamento errado na bike, aliado à natação nervosa e é claro, um pouco mais de condicionamento físico para aguentar aquele tranco todo. De novo joguei o conteúdo da sacola de transição no chão e começa a transformação: tira sapatilha e capacete, troca camiseta segunda-pele e meias, lente escura do óculos pela clara, já que a corrida ia entrar na noite e calçar o tênis.

Saí da tenda de transição após uns 10 minutos e vi uma mesa cheia de guloseimas, um verdadeiro banquete. A mocinha do staff sorridentemente anunciava: “água, Gatorade, bolo...”. Dei marcha a ré, peguei alguma coisa para beber e um generoso pedaço de bolo. Ela riu da minha “fome” e quando acabei de detonar a iguaria, disse “não conte para a minha nutricionista!”. A resposta foi “ah, hoje pode!”. Saí para a corrida e o cadarço elástico do tênis parecia meio frouxo... e quem disse que eu conseguia abaixar? Com as costas doendo, a cara de sofrimento deve ter sido bem feia, uma pessoa que passava ao lado da grade disse: “deixa que eu amarro pra você!”. Mas além de não pode receber ajuda externa na prova sob risco de desqualificação, só agradeci e
puxei o que dava. E pensar que já chamei estes cadarços elásticos de “frescura de triatleta”, paguei minha língua ali.

O impressionante do início da maratona do Ironman Florianópolis não é apenas o visual das mansões de Jurerê, mas todo o povo que está lá te aplaudindo, lendo seu nome no número de peito e te dando incentivo, como se você fosse o primeiro lugar da prova! Até o final da Av. dos Búzios muito incentivo e palavras animadoras, depois disso a coisa fica chata. O percurso neste ano sofreu uma alteração devido ao trânsito, e as temidas subidas de Canasvieiras ficaram logo para o Km 4. Já estava decidido a andar neste trecho e quando vi a inclinação e os atletas que já desciam no sentido contrário só com a força da gravidade, não tive dúvida, aqui será um trecho lento.

E de novo animação: um grupo de pessoas abriu a garagem e com som no último volume saudava os atletas. Para completar, jogavam uma corda lá na frente da subida e o atleta que pegava era “puxado” (de brincadeira, naturalmente) para cima. Na volta, o mesmo grupo ainda bagunçava na rua, incentivando os corredores. Ao som de “Titanium” (David Guetta / Sia), passei por eles com os braços levantados do tipo “balada insana”. Como diz a letra da música “You shoot me down but I won't fall, I am titanium!”, e vou ter que ser de titânio mesmo, só foram uns 13 Km até agora...

Uma percurso de corrida de triathlon ou mesmo de uma prova de Ironman nem sempre é pensado em prover o melhor visual turístico para o atleta, mas no caso desta prova ele é especialmente sem
graça na maior parte do tempo. Passa-se novamente por algumas mansões em Jurerê e pega-se alguns trechos de ruas tranquilas, mas o pior são os chatíssimos e intermináveis trechos de estrada. Eu adoro percursos de estrada, mas no caso do Ironman Florianópolis eles são bem cansativos, planos e repetitivos. Correr em provas de 2 voltas já é um desafio mental, mas 3 voltas, nesta distância, o psicológico tem que aguentar muito bem. Por exemplo, você passa por uma placa e ela marca “14”, alguns metros à frente está outra, “24” e mais alguns, outra “34”. Dá para imaginar?

Eu tinha mais de 7 horas para cumprir o percurso, se fosse andando chegaria ainda no tempo limite, mas não é assim que se faz. Fui no meu trote sem forçar, andando apenas no trecho das subidas nesta primeira parte. Pouco adiante do Km 21 estavam as sacolas de percurso novamente. Parada estratégica, fui ao banheiro químico e parei para tomar mais um analgésico para as costas e trocar as meias. Uma garoa fina já começava a
engrossar, quanto menos atrito nos pés melhor. O pessoal do staff como sempre muito generoso, até ofereceram uma cadeira para eu sentar e fazer a troca!

O que faltava agora eram 2 voltas menores, com aproximadamente 10 Km cada, e já víamos muitos atletas comemorando a última volta em direção à chegada. Incentivo e ao mesmo tempo frustrante, pois ainda estávamos no percurso muito atrás. Andei em alguns trechos mais por tédio do que por desgaste físico. Sim, o psicológico falou mais alto e o cansaço até bateu um pouco, mas faltava menos de 20 Km para o final. Ultrapassei alguns atletas, tentei incentivar e alguns até engataram um pouco a marcha. E a chuva caí fina e às vezes apertava, mas tudo ali era festa.

Pois bem, voltei à área de mansões de Jurerê, e antes da curva final, quando estava meio emparelhado com uma atleta possivelmente estrangeira, ouvi uma moça com uma criança de colo, naquele frio dizer para nós: “gente, vocês não sabem o incentivo que vocês são para nós!”. Só consegui dizer “obrigado, moça, ganhei meu dia!”. E ganhei mesmo, saber que você está ali martelando seu corpo há quase 16 horas e que sua atitude inspira outros, bom, como diria a propaganda, não tem preço.

Passei então o Km 41 da corrida, pouco mais de 1 Km para o fim do meu Ironman e...

Pensou que eu ia terminar a estória aqui? É igual seriado americano, quando fica emocionante, aguarde o próximo episódio...

2 comentários:

  1. Ahhhhh!!! kkkkkkkkk
    Mais foi tudo maravilhoso até aqui. Realmente nos motiva. Só que nem quero saber de um absurdo destes pra mim não. É demais. Deixo isso para os mais fortes e preparados. rsrs
    Grande abraço, sucesso e tudo de bom sempre.


    tutta/Baleias-PR
    www.correndocorridas.blogspot.com.br

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    1. Acho que você quis dizer "os mais insanos", correto? Talvez meu preparo físico tenha faltado em vários momentos, mas acho que ter entendido bem a logística da prova e das distâncias ajudou bastante.

      Abraço!

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