sábado, 29 de setembro de 2018

Melhorias (e algumas falhas) na 26ª Maratona de Revezamento Pão de Açúcar


Correr provas tradicionais é sempre assim, o corredor tem a confiança de que o evento será bem organizado, mas não deixa de ter o olho mais aguçado para encontrar pontos de crítica. Mas como as melhorias superam os poucos erros da 26ª Maratona de Revezamento Pão de Açucar em São Paulo, o saldo positivo é motivo de elogio, dada toda a logística que demanda uma prova com expressivo número de participantes (aproximadamente 16.500 como divulgado no dia seguinte) e em vias importantes da cidade.

Mantendo sua oferta de equipes de 8, 4 ou 2 participantes para completar os 42,2 Km de uma maratona, o percurso de 2018 inovou com um trecho na Av. República
do Líbano, ao lado do Parque do Ibirapuera, que forneceu menos asfalto da Av. 23 de Maio e consequentemente menos sol nos bonés dos corredores. Mais agradável, a avenida arborizada é palco de muitos outros eventos de corrida da cidade, que também ajuda na familiaridade para o atleta que participa de provas na região.

Mas a grande sacada deste ano foi manter todos (sim, todos!) os postos de troca das equipes de 8 atletas dentro do Parque do Ibirapuera, o que evitou o stress de ter que se deslocar até pontos distantes da estrutura de largada/chegada. Quando corri esta prova pela primeira vez em 2006, lembro que era o 2º. atleta de uma equipe de 8, tendo que sair em disparada para um ponto de troca na Av. Rubem Berta, ou seja, foi quase mais uma “perna” de 5 Km de prova,
tendo sido mantido este formato até o ano passado. Já para as equipes de 4 e 2 atletas, os postos de troca estavam bem em frente à área de largada, completando voltas de aproximadamente 10 Km de acordo com a quantidade de atletas no revezamento. Mesmo tendo que fazer 2 voltas para completar os 21 Km da minha parte, achei o percurso novo bem mais agradável, tirando-se, é claro, o calor de mais de 30 graus na segunda metade da prova.


Outro ponto positivo é o preço da inscrição para corredores cadastrados no programa de fidelidade PA Mais, que reduzia em 40% o valor a ser pago para cada atleta. Porém, ao tentar usufruir dos benefícios do cliente da marca através do aplicativo de celular, como anunciado na entrega dos kits, não consegui completar meu cadastro
por erro do programa e não tive acesso à área exclusiva. Também referente aos kits, ao retirar o da nossa dupla os respectivos números de peito não foram localizados, gerando um atraso de mais de 10 minutos para ser atendido, envolvendo 3 funcionários para resolver o problema e recebendo um número que até o momento não tem resultado oficial registrado.

Hidratação perfeita, com água sempre gelada nos postos muito bem espalhados pelo percurso, excelente sinalização e policiamento de trânsito, muitas atrações na arena com espaços dos patrocinadores e muitos brindes, kit melhor que o do ano anterior (camiseta e mochila de melhor qualidade). Ainda há um ponto que precisa muito ser melhorado: a prova possui duração máxima de 5 horas, porém ao passar minha 2ª volta pelo posto de troca das equipes de 8 atletas percebi que ainda havia 2 e até 3 corredores que ainda iriam largar no revezamento em seus times, ou seja, excederiam facilmente o tempo limite, já que completamos nosso percurso de dupla em
(aproximadamente) 4 horas e 30 minutos. Acredito que esta regra precisa ser melhor explicada na inscrição e na retirada de kit, pois muitos corredores vão para a largada com a sensação de que podem caminhar e os outros membros da equipe irão literalmente correr atrás do prejuízo, mas não é assim que funciona em provas de revezamento.


Como disse no início, pequenas situações que não tiram a grandeza de uma prova tradicional e que vale a pena participar. Pena que neste ano só consegui arranjar uma dupla na última semana, pois ninguém queria enfrentar os 21 Km comigo,
o que acarretou em menor preparo para a distância. Agradecimentos, é claro, à colega Ivana que topou mais uma maluquice e à rádio Mix FM 106.3 pelo kit presenteado em uma brincadeira de perguntas e respostas.

domingo, 2 de setembro de 2018

A linha de chegada da Comrades Marathon 2018!


Só quem já entrou na reta final de uma corrida, seja curta ou longa, sabe como é a emoção de estar perto de concluir o objetivo. Ninguém inicia no mundo das corridas com uma maratona ou prova de resistência, a maioria experimenta distâncias como 5 ou 6 Km, talvez até menores, e depois gradativamente evolui para trajetos longos. Este que lhes escreve começou em 2006 em uma prova que possuía as distâncias de corrida 5 Km, 10 Km e caminhada 5 Km, completando esta última e recebendo, extasiado, uma medalha de latão envernizada com o nome da prova e o símbolo de um grande banco (já extinto) que patrocinava o evento, pendurada em uma fita de cetim. Mas não foi isto que me lançou no mundo das corridas, e sim estar na pista contrária da Av. 23 de Maio em São Paulo durante a caminhada e ver a manada de gente vindo do outro lado correndo. Neste momento, o tal bichinho da corrida me picou, e 12 anos depois olha onde eu vim parar... nos metros finais da Comrades Marathon 2018!

Como expliquei no post anterior, apesar de não ter mais as infindáveis subidas e descidas que deixamos para trás no percurso entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, o trecho plano e o tempo de sobra não inspirava ninguém a correr os menos de 2 Km até o gigantesco estádio de futebol Moses Mabhida que nos aguardava ao final. E a medida que nos aproximávamos, a imponente construção, herança da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, parecia cada vez mais grandiosa com suas luzes acessas e a vibração que vinha do público em seu interior. Ao longo da via muitos torcedores nos saudavam, incentivando com as palavras “push! push! push!” que ouvimos várias vezes ao longo do dia, nos meus 90 Km mais incríveis - e únicos, diga-se - que já havia percorrido.


É hora do protocolo final, estamos em terras estrangeiras, um povo amigo e que nem parece estar do outro lado do Oceano Atlântico pelo entusiasmo com que recebe os brasileiros. A palavra “comrades” significa “camaradas” e a prova faz jus ao seu significado, valorizando sua história e tradição. Saquei então a querida bandeira do Brasil, que ia de um braço a outro e ainda acrescentei uma bandeirola da África do Sul, como forma de homenagem e agradecimento a este país incrível que nos dava este evento grandioso. Quando subimos a calçada do estádio, um cronômetro enorme dizia o tempo de prova, e eu tinha mais de 20 minutos para percorrer uns 100 metros até a linha de chegada.

Bom, acho que dá para correr mais um pouco...


(vídeo feito com celular, infelizmente esqueci a câmera de esportes no hotel...)

Deu para escutar no vídeo o berro que eu dei ao embicar na entrada do estádio? A emoção é indescritível, tenho mais de 250 linhas de chegadas em diversos tipos de provas, até mesmo em dois Ironman, mas esta é uma que não se esquece jamais. O público em alvoroço, o locutor incentivando, os corredores animados ao redor. E após 11 horas, 41 minutos e 10 segundos depois de largar, você escuta o beep do seu chip passando sobre o tapete de cronometragem, e entre todos os outros sons ao redor, sabe que aquele ali foi produzido por você. Fim.


Missão cumprida, corredor 33522, estrangeiro, país de origem Brasil, você foi o 13.944º colocado de um total de 19.062 que largaram e concluiu a 93ª. Comrades Marathon, edição 2018. Da largada até a chegada, 90.184 metros de distância. 

Tradicionalmente ela tem apenas 29 milímetros,
menor que a maioria das moedas,
te faz pensar não no tamanho da medalha, mas da conquista
Quanta coisa eu ainda poderia te contar sobre tudo o que envolve a prova, trajeto, chegada, treinos, decepções ao longo do caminho até o grande dia, dor durante o percurso, enfim, um blog não comportaria tudo isso. Mesmo assim, este momento merecia ser compartilhado com quem passa aqui, não para me exaltar, mas para te incentivar a buscar coisas grandes e difíceis, pois as pequenas e fáceis você tem a todo momento.


Hoje é dia 02 de setembro de 2018, em algumas horas as inscrições da Comrades 2019, percurso inverso entre Durban e Pietermaritzburg, vão iniciar. É só acessar o site da prova, preencher o cadastro e pagar, depois são mais de 8 meses para comprovar uma maratona em menos de 5 horas e registrar o resultado, simples assim. Ou não. Dá um enorme aperto no coração saber que nesta próxima não estarei, não por motivo financeiro ou de achar que não conseguiria fazer tudo de novo, mas por ter outros objetivos na corrida para os próximos anos. Minha estória com a Comrades previa uma única conclusão, e assim foi. Em breve, novos desafios.

Mas com certeza o mundo fica menor depois de uma Comrades...



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Olha eu aí, nas páginas da Revista Contra-Relógio!


Antes de contar sobre os metros finais da Comrades chegando no estádio Moses Mabhida, uma pausa para compartilhar a surpresa gratificante da foto ao lado. Na edição de agosto da Revista Contra-Relógio, importante veículo de informação aos corredores nos últimos 25 anos, foi publicado um texto que escrevi contando como utilizei as planilhas sugeridas pela revista aos leitores para encarar os desafios de maratonas e meias pelo mundo afora. Dada a importância que estas planilhas tiveram em meu planejamento para a ultramaratona, compartilhei com o editor chefe, Tomaz Lourenço, o texto que estampa as páginas 44 e 45 da edição 299 de agosto 2018, onde conto um pouco de como aproveitei o direcionamento das matérias na preparação específica para os 90 Km.

A ausência de provas como a Comrades no Brasil, ou pelo menos corridas em asfalto com percursos acima dos 42.195 metros da maratona, torna difícil para o corredor planejar os treinos voltados à uma competição com características da ultra sul-africana. Tomei como base provas semelhantes, planilhas que indicavam como gerenciar duas maratonas próximas e até mesmo uma sugestão de treino para a Comrades que também já apareceu nas páginas da revista.

Gráfico de Burndown
Semanalmente balizava meus volumes de treinos de corrida com o proposto pela revista, montando alguns gráficos que ajudaram a tomar rumos nos momentos de indecisão. Gostaria de ter seguido à risca as sequências propostas, com treinos de tiros, subidas e rodagens como apresentado pelos profissionais que criaram os estudos, porém muitas vezes elas não se adaptam à uma rotina de escritório, como é o meu caso. Mesmo assim, os volumes de treinos sugeridos mostravam como deveria ser a evolução do treinamento ao longo dos meses, informação de grande valia.

É importante ressaltar que como complemento dos treinos propostos pela revista, que focavam essencialmente na corrida, encaixei musculação, bike ergométrica, máquina de remo e sessões semanais de natação, de forma a liberar o corpo para não trabalhar somente os músculos da corrida. 

a disciplina para preencher tanta informação não é fácil,
mas vale a pena!
Estes treinos extras, aliados ao direcionamento da corrida, permitiram chegar ao final do período sem dores ou lesões, mostrando a importância do planejamento prévio para uma prova deste porte.

Edição 299 - Agosto 2018
Este aqui que lhes escreve corre há mais de 12 anos, e também lê a publicação desde que iniciou suas passadas. E mais uma vez registro meu agradecimento à Revista Contra-Relógio na figura de seu editor Tomaz Lourenço e equipe pela oportunidade de compartilhar esta experiência com os leitores. Minha mais sincera admiração pelos profissionais que contribuem mensalmente com informações tão importantes para os corredores!

(ah sim, eu “desfoquei” propositalmente o texto da minha foto, assim não desrespeito os direitos de publicação da revista e ainda convenço você a comprar a edição para ler a matéria...)

domingo, 5 de agosto de 2018

Comrades Marathon 2018... só faltam mais 45 Km...

Quando você corre uma meia maratona e passa da marca de 10 Km, é uma sensação de alívio te dizendo que metade já foi. Idem para uma meia maratona em um evento de 42 Km, mas, como é esse negócio de já ter concluído mais que uma maratona inteira e ainda ter outra pela frente? Lá vem a segunda parte da Comrades “em descida”, mas como eu já falei no post anterior, o termo é meramente para designar o sentido da prova, pois a altimetria em nada favorece o corredor.

E então, com 05:22:58 horas de tempo de prova desde o tiro inicial, passei pelo tapete de cronometragem do Km 44,28, sendo que ainda faltam 45,92 Km pela frente. É incrível a agitação deste ponto da prova, o negócio é mais festivo do que muita linha de chegada que eu
Halfway 2018-06-10 10.53 am
já vi, e o mais incrível é que não é uma área urbana, mas no meio do caminho entre 2 grandes cidades. Pouco adiante deste ponto descartei minha última peça de roupa extra, uma camiseta velha manga comprida de uma prova de 2009, que estava por baixo da camiseta regata. Ainda fazia bastante frio, pois estávamos próximo ao ponto mais próximo do percurso e ainda sem sol, mas precisava dar por finalizada esta fase de preocupação com peças de roupa para seguir viagem. Fiz isto na frente de uma das vans que ficam posicionadas para levar os corredores que são cortados ou desistem da prova naquele ponto, pois em menos de 50 minutos quem passar por ali não vai poder continuar na corrida. Esta é uma regra que eu apoio totalmente para ser implantada nas provas aqui no Brasil, qualquer distância acima de 21 Km deveria ter pontos de corte, evitando eventos “sem fim” como ocorrem regularmente. Longo assunto, depois conversamos sobre isso em outra ocasião.

Um pouco mais adiante os corredores passam por dois marcos que fazem parte de todo o folclore da Comrades: Arthur’s Seat, uma brecha em na montanha ao lado da estrada, onde diz a lenda um corredor sentava-se para descansar dos treinos e pitar seu cachimbo em paz, hoje homenageado pelos demais com a colocação de folhas e flores durante a prova, e o Wall of Honour, um paredão de placas verdes e amarelas de corredores que literalmente escreveram seus nomes nas provas. Momento registrado, é hora de ir em frente, tem muita estrada para o os tênis devorarem.


As subidas continuavam, e seriam mais 13 Km até o próximo ponto de corte, quando um longo declive se apresentou à frente. Já começou a descida principal da prova? Ainda não, esta é Kloof, apenas uma “amostra grátis” do que está por vir. Foi um momento muito especial da prova para mim, pois fiquei um tempão correndo e conversando com um corredor sul-africano, mais uma das grandes marcas do evento, que recebe muito bem quem está com a camiseta verde e amarelo do nosso país. E assim aproximava-se do ponto de corte do Km 58, onde chegaria com estes números:

Ponto: Winston Park
Distância:  57,61 km      
Tempo: 07:13:01
Velocidade: 07:30 min/km



Um pouco mais adiante da estrutura da prova montada para atender os corredores, novamente algumas vans estacionadas pelo mesmo motivo que já expliquei lá atrás. Parei um pouco e saquei um spray anti-inflamatório para aplicar nas pernas, e o engraçado foi ter que explicar para uma moça da organização que eu estava bem, só me recuperando, e que não, eu não queria entrar na van e ser levado para Durban...

Winston Park 2018-06-10 12.42 am
O tal trecho em descida finalmente chegou e com ele, dores memoráveis nas pernas. Parece fácil falar que vai correr “na descida”, mas quando seu corpo já foi esmerilhado por uma série de sobes e desces pelo caminho, expor a musculatura a uma descida íngreme e com caimento lateral na pista não é nada simples. Caminha-se e bastante neste trecho, pois a configuração da passada muda, e com isto aparecem dores e desconfortos diferentes dos demais experimentados no dia. Também nesta parte da prova alguns dos ônibus e vans que levam os corredores desistentes ou eliminados passa a dividir a pista com os atletas na prova, e acredite, dentro ou fora o olhar é de desânimo, pois é uma cena triste.

Mais um ponto de corte chegou:

Ponto: Pinetown
Distância:  68,86 km      
Tempo: 08:47:37
Velocidade: 07:39 min/km



Uau, só falta uma meia maratona! Pois é, na Comrades tem-se que pensar assim, senão vai tudo pro vinagre. Entramos (finalmente!) em um trecho realmente plano, mas a alegria durou apenas alguns quilômetros, pois Cowies Hill, uma montanha no meio do nosso caminho, apareceu no horizonte para indicar que ainda tínhamos mais algumas subidas pela frente. É impressionante a agitação e empolgação da torcida ao longo da prova, especialmente em trechos difíceis como este. Aqui, quase todo mundo anda, inclusive os Green Numbers, então não vamos querer ser diferentes. É como diria Nelson Mandela: “Depois de escalar uma montanha muito alta, descobrimos que há muitas outras montanhas mais por escalar”. Cowies Hill estava aí pra isso.

Não demorou muito e o último ponto de corte da prova antes da chegada apareceu no radar:

Ponto: Sherwood
Distância:  81,31 km      
Tempo: 10:26:20
Velocidade: 07:42 min/km



Coração na boca, faltam menos de 9 Km e eu tenho mais de uma hora e meia para rodar esta distância! Muita calma nessa hora, o que pode dar de mais errado é uma lesão ou mal-estar, pois a quilometragem não mais assusta. Logo após Tollgate Bridge, outra descida dura, observei a marca de 84 Km, ou seja, até aqui são praticamente 2 maratonas! No mesmo dia, caramba! Mas ainda faltam 6 Km, e eles não foram fáceis. Apesar do trecho plano que dominaria esta última parte, era difícil correr, e a maioria dos atletas
caminhava, pois queria chegar no estádio em pé, correndo e de cabeça erguida. O relógio estava a nosso favor agora, não seria mais possível terminar em menos de 11 horas e ganhar uma Bronze Medal, então a palavra de ordem é gerenciar o que falta.

Entramos na reta final, passando ao lado do estádio Kingsmead, onde a prova terminava nas edições em descida até 2016, porém neste ano foi transferida para o Moses Mabhida Stadium, construído para a Copa do Mundo de 2010 e mais de 1 Km adiante do outro. Mas chegar em um estádio de Copa é muito mais glorioso do que um de críquete, e todos ali estavam ansiosos por inaugurar este novo formato da prova, ninguém parecia incomodado com a distância extra.

Eu prometi 3 posts, mas vou ter que parar aqui e fazer um pouco de suspense de como é terminar a ultramaratona mais famosa do planeta, entrando em um estádio gigantesco e com público nas arquibancadas.


Em breve, a chegada da Comrades Marathon 2018...

(as fotos em que eu apareço nesta postagem foram adquiridas no site Jetline Action Photo

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Comrades Marathon 2018... os primeiros 45 Km


Domingo, 10 de Junho de 2018, 05:30 horas da manhã, Pietermaritzburg, África do Sul, temperatura próxima dos 5 graus Celsius. Em uma avenida à frente da sede da prefeitura da cidade, quase 20 mil atletas amadores e alguns poucos profissionais se aglomeravam aguardando o início da 93ª. Edição da Comrades Marathon. Neste ano a prova será em “descida”, chegando até a cidade de Durban, no litoral do Oceano Índico. A distância oficial é de 90.184 metros, um pouco mais que nas edições anteriores pois a novidade para este ano é finalizar no estádio Moses Mabhida, ao invés do tradicional estádio Kingsmead. Para se ter uma ideia, uma maratona tem a distância oficial de 42.195 metros, portanto esta prova equivale a 2 maratonas + 5.794 metros, em um mesmo dia, com pontos de corte ao longo do percurso e tempo máximo de conclusão de 11:59:59. Há um porém, este tempo não é considerado do momento que o corredor passa pelo tapete de cronometragem, mas sim a partir do tiro de largada, então cada segundo conta.



neste vídeo foi possível capturar a excitação da largada, 
com toda a sequência tradicional do início da prova

Uma vez que a prova exige a comprovação de tempo para validar a inscrição e definir o pelotão de largada do corredor, já dá para imaginar que ficar nas posições mais distantes do pórtico só vai trazer mais asfalto a ser percorrido. No meu caso, estava no pelotão F, ainda à frente do G e H, porém com tanta gente à minha frente que demorei 8 minutos para passar oficialmente pelo tapete, tempo que já estava sendo contabilizado no total. Cruel? Sim, não será um dia fácil, muitos guerreiros ficarão pelo caminho e cada um ali sabe a responsabilidade que tem. Ninguém os obrigou a estar naquela madrugada fria alinhados na largada, chegaram até ali por livre e espontânea vontade.

O termo “descida” para designar as edições que ocorrem nos anos pares é meramente ilustrativo, diz apenas que parte-se de uma cidade do interior e chega-se a uma cidade litorânea, onde naturalmente a elevação irá cair até o nível do mar. O percurso é uma montanha-russa de sobes e desces intermináveis, alguns com muitos
quilômetros, o que deixa os novatos pensando sobre se haviam comprado o produto correto na inscrição. Ainda escuro, e com alguns trechos um pouco mais afunilados, esta trupe vai se esbarrando e se ajudando como pode, diversos “sorry” são ouvidos, água é passada dos mais na ponta para os que estão no centro da massa de gente, tapinhas nas costas e muitos grupos correndo junto. Sem contar os “ônibus”, grupos guiados por corredores experientes, oficiais da prova, que guiam um grupo de atletas para a conclusão em um determinado tempo limite. Pontuais como coletivos urbanos, eles chegam a cada meia hora no destino, sempre com um corredor
Camperdown 2018-06-10 08.39 am
levando uma plaqueta com tempo previsto e o nome do atleta. Para quem consegue seguir o ritmo deles, ótimo, mas não é fácil, os “bus drivers” já sabem em que ponto diminuir o ritmo ou aumentar, e isto pode não ser muito compatível com sua estratégia de prova.

Comecei minha jornada no ritmo planejado, apesar de que não podia apertar muito devido ao pelotão compacto em que estava. Aqui no Brasil sempre se escuta um ou outro apressadinho gritando “abre! abre!” nas corridas, mas lá estavam todos gerenciando seu esforço. Passei o primeiro ponto de corte com o resultado abaixo:

Ponto: Lion Park
Distância:  15,57 km      
Tempo: 1:58:04
Tempo máximo: 02:30:00
Velocidade: 7:35 min/km


Veja que apesar da baixa velocidade para uma corrida, estava com uma folga de quase 32 minutos, o que precisava ser gerenciado ao longo do percurso. A prova seguiu, e o sobe e desce de montanhas, sempre asfaltadas, castigava o corpo incessantemente. Apesar de dificilmente alguém ser cortado neste primeiro ponto, nos demais a estória já é outra, pois será uma surra atrás da outra ao longo do trajeto, cada subida demanda esforço, e não pense que as descidas não causam estrago também.

Cato Ridge 2018-06-10 09.49 am
Com o dia já raiando, percebia-se que não seria muito ensolarado, mas possivelmente contrariando a previsão de tempo que havia dado o prognóstico de chuva no percurso. É interessante destacar que devido à prova acontecer nesta época do ano e a temperatura ser algo próximo do que seria na região Sul do Brasil, os corredores costumam largar com camadas extras de roupas, que são abandonadas ao longo do caminho e recolhidas pela organização para direcionamento à entidades assistenciais. Eu já havia descartado alguns itens, mas ainda estava com gorro de lã, luvas e uma camiseta que ficariam pelo caminho mais adiante.

Cheguei então ao próximo ponto de corte:

Ponto: Cato Ridge
Distância:  30,28 km      
Tempo: 3:40:14
Tempo máximo: 04:20:00
Velocidade: 7:17 min/km


Sim, eu estava 40 minutos adiantado, mas não é hora de euforia, afinal até aqui temos somente 1/3 da prova. Duras subidas irão bater de frente com os corredores neste trecho, pois nos dirigimos ao ponto mais alto do percurso, mais de 800 metros acima do nível do mar, o que é mais ou menos como estar na Av. Paulista.

Contando um pouco sobre a estrutura da prova, são mais de 40 mesas de hidratação espalhados pelos 90 Km, e não são mesinhas com água apenas: Coca-Cola, isotônico de vários sabores, batatas, doces e algumas ainda contam com equipe para aplicação de gel de
Inchanga 2018-06-10 10.43 am
arnica e massagem. É uma estrutura que muito corredor nem sonha que existe, um evento de proporções gigantescas. Eu diria apenas que a prova precisaria de mais banheiros químicos, mas muito corredor se arranjou nas moitas ao lado da rodovia mesmo.

Com a aproximação da metade da prova, uma subida pesada e longa se apresentou diante dos corredores, levando muitos a caminhar por longos períodos. Quando o atleta completa 10 edições da Comrades ele ganha o Green Number, e este número será sempre seu, sendo que a cada retorno à prova ele recebe o número de peito e costas na cor verde. Olhando ao meu redor eu via muitos Green Numbers andando, e esses caras sabem o que fazem.

Cheguei então à metade da prova:

Ponto: Drummond
Distância:  44,27 km      
Tempo: 5:22:48
Tempo máximo: 06:10:00
Velocidade: 7:18 min/km


Ainda muito adiantado em relação ao tempo de corte.

Mas já foi uma maratona, e agora?

Eu te conto em breve...

(as fotos que aparecem nesta postagem foram adquiridas no site Jetline Action Photo

                                               

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Comrades Marathon 2018... 90 Km. Sim, eu fiz!


Continuando o post anterior, agora você entende o motivo de correr 2 maratonas com apenas 2 semanas de intervalo. A insanidade nada mais era do que um treino para correr 2 maratonas + 6 Km de uma só vez, em um dia apenas, com pontos de corte apertados e com uma altimetria de dar medo a qualquer um. Como descrever em um humilde blog como este um evento tão grandioso como a Comrades Marathon? A prova acontece na África do Sul todos os anos desde 1921, com pausa apenas no período da II Guerra Mundial, sendo um ano em “descida” indo da cidade de Pietermaritzburg até Durban, e no seguinte ao contrário, em “subida”. Porém estes termos dizem respeito apenas a uma parte do perfil altimétrico, na verdade a corrida é recheada de subidas e descidas, o que esmigalha qualquer corpo humano, bem treinado ou não. Pois é, resumir em um post apenas é impossível, escrever um livro aqui neste espaço também não é ideal, então vamos sintetizar como foi esta experiência, e quem sabe eu te motivo a fazer o mesmo algum dia.

Dividirei este assunto em 3 postagens, assim consigo passar um conteúdo decente ao leitor. Vamos começar com as informações gerais do evento.

Vou me inscrever então, eeeba!

A prova possui um limite de participantes de aproximadamente 20.000 atletas, às vezes estendido por uma ou outra ocasião que justifique. A única distância é a completa, 87 Km em subida e 90 Km (antes 89) em descida. O Km extra neste ano foi devido à chegada no estádio Moses Mabhida, construído para a Copa do Mundo de Futebol de 2010, e que fica a alguns quarteirões da chegada anterior, o estádio de críquete Kingsmead. O processo de inscrição é muito simples, o site está totalmente em inglês, porém é necessário que o atleta apresente entre maio do ano da competição e agosto do ano anterior ao menos uma maratona ou outros eventos como ultras ou Ironman em tempos consideráveis, sendo que quanto melhor o tempo apresentado, melhor o posicionamento de largada. O tempo máximo que pode ser apresentado como comprovação é de 5 horas na maratona, porém isto coloca o corredor no último pelotão, e largar com 20.000 pessoas à sua frente não é fácil, pois a prova possui um tempo limite de 11:59:59 para conclusão, pontos de corte ao longo do percurso e o tempo é contado a partir do tiro de largada, e não da passagem pelo tapete de cronometragem.

pontos de corte do percurso

Ou seja, perder 10 a 15 minutos para passar pelo pórtico é tempo de prova, não descontado do tempo limite! O valor é um pouco salgado mas não é nenhum absurdo, o equivalente a uns USD 220, mas dada a estrutura da prova, é totalmente justificável. Geralmente abertas entre setembro e novembro do ano anterior à prova, as inscrições costumam esgotar no máximo em outubro. Como é que é, 20 mil inscritos para uma ultramaratona, e esgotam as inscrições? Sim, é isso mesmo.

Deve ser complicado para chegar lá...

Bom, você vai ter que cruzar o Oceano Atlântico. Pode parecer uma fortuna, porém se comprada com antecedência a passagem pode sair mais barato do que uma dentro da América do Sul. São 2 voos para ir e 2 para voltar no mínimo, do Brasil até Johanesburgo e de lá até Durban, mas mesmo assim um pouco de planejamento resolve a questão. Lembre-se, como as inscrições encerram relativamente rápido, não há motivos para deixar a passagem para a última hora.

E aonde eu fico?

Durban é uma joia às margens do Oceano Índico, portanto uma cidade turística com excelentes opções de hotéis. Já Pietermartizburg não possui este apelo, portanto com opções de hospedagem mais restritas. Ficar em Durban e ir para a Maritzburg (como o povo de lá mesmo se refere à outra cidade) é a melhor opção, mesmo que a prova parte desta, pois ônibus da própria organização levam os corredores até a largada. Agências de turismo aqui do Brasil operam com pacotes onde é possível contratar os dias de hospedagem em uma e passar a noite na cidade de largada hospedado em um hotel. Mas se você pensa que vai dormir na véspera, pode esquecer, a tensão é alta...

A feirinha... feirinha nada, aquilo sim é “feira”!

Tem coisa mais enfadonha do que pegar kit de prova aqui no Brasil? No geral o máximo que se tem de boas recordações é encontrar os colegas, mas sem muito o que fazer. Lá, a estória é outra. Começa com o atendimento separado para os estrangeiros, sempre muito bem recebidos pelos sul-africanos, especialmente se você for brasileiro. Tudo rápido, organizado, e um kit recheado de brindes. O chip de cronometragem deve ser comprado, e mesmo que você não tenha um ainda, na própria inscrição já é possível fazer o pagamento e adquirir, sendo que ele é usado não só na Comrades, mas em outras provas da África do Sul.



Depois de pegar o kit, você vai ter um pavilhão inteiro com estandes de roupas, corridas no país, novidades do mundo running, souvenires, praça de alimentação, espaço de palestras e uma gigantesca loja da marca esportiva que estiver patrocinando a corrida com diversas peças de roupa com o logotipo do evento. Leve um “trocadinho” para gastar nesta feira, você não vai resistir, mas contenha-se em ficar batendo perna durante horas pois você terá um longo caminho no dia da corrida.




O Museu da Comrades

Você leu direito, a prova é um patrimônio nacional, tem até mesmo uma espécie de museu, com diversos artefatos doados pelos campeões, painéis, uma maquete interativa do percurso e muita, muita história registrada. Fica em Pietermaritzburg, vale a pena conhecer.





A noite que antecede o evento

Faça o que você tiver que fazer, mas acredite, você vai dormir pouco. É claro que você não vai passar a noite em um dos cassinos da África do Sul, mas pode esquecer que sono você não vai ter. A largada é às 05:30 pontualmente, então o mínimo que você vai ter que acordar é lá pelas 03:00, supondo que você está dormindo na cidade de largada. E o nervosismo, você acha mesmo que consegue pregar os olhos? Vai por mim, tente descansar o máximo que puder quando tiver um tempo.

E agora, deixo você no suspense, na próxima postagem vou contar como é enfrentar 90 Km de estrada, cruzar montanhas, passar o dia a base de gel de carboidrato e outras pequenas porções de alimentos, beber muita água, isotônico e Coca-Cola, tudo isso para percorrer sobre as próprias pernas a distância entre duas cidades na África do Sul...