segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Belas, diferentes, nada fáceis: duas provas de 21K imperdíveis!

Cansado de correr sempre na Av. 23 de Maio, ou na região do Pacaembu ou lá no extremo da Marginal Pinheiros? Se você é de São Paulo capital e imediações deve estar com a mesma sensação que eu, às vezes repetir provas ou circuitos que só trocam o nome começa a transformar as competições monótonas e caras. Então, sem precisar se deslocar muito para fora da cidade, vamos a duas meias maratonas que não são para qualquer um, dada sua dificuldade de altimetria, mas que valem a pena como desafios alternativos.

Pontos positivos, ambas são do mesmo organizador, a Caminhos do Mar, com estrutura simples e eficiente, além de preços acessíveis. E finalmente um organizador que tem o respeito pelo corredor e permite retirar o kit no dia da prova!

Pontos (mais ou menos) negativos, são próximas no calendário, o que pode ser um pouco desgastante devido ao percurso que exige bastante dos corredores. E ambas com camisetas quase iguais, excelentes, mas muito parecidas.

Atenção, gastos extras a considerar em cada evento:
- Ingresso para o Parque Estadual da Serra do Mar (R$ 32,00)
- Pedágio na Rodovia Castelo Branco, Praça Barueri (R$ 4,20)
* valores com base na data de publicação desta postagem


Meia Maratona Estrada Velha, 
tudo que desce, sobe...


A prova que dá nome ao organizador é uma das mais incríveis e difíceis que o corredor irá enfrentar nos percursos de 10, 15 ou 21 Km, pois basicamente metade será descida e a outra metade o percurso de retorno, ou seja, subida. Mas o visual desta incrível corrida por dentro do Parque Estadual da Serra do Mar irá levar o
corredor pela estrada velha que liga a via Anchieta até Cubatão, uma viagem no tempo, onde fazer este tipo de doideira por simples diversão seria considerado insano. A descida exigirá muito das pernas do corredor, dada a inclinação da pista, ficando plano somente no trecho onde os atletas passam pelas instalações da Petrobrás em Cubatão com retorno pouco além do pórtico de entrada da cidade. E aí, o que era descida vai virar subida pelo mesmo caminho, onde a maioria irá caminhar em muitos trechos para vencer o aclive.



Uma prova diferente e com visual incrível, que mesmo com chuva durante quase todo o trajeto não tirou a beleza da região. Ver a baixada santista lá do alto, passar ao lado das imensas estruturas da companhia petrolífera como dutos, reservatórios e toda sua complexidade, além da beleza natural deste pequeno pedaço da Mata Atlântica que ainda sobrevive em meio ao crescimento desordenado da região Sudeste, torna o evento mais especial ainda, sem preocupação de terminar com tempos ou recordes.


Como diz o slogam da prova: desafio de prova de montanha, com o conforto e segurança de uma prova de rua, em meio a natureza exuberante!

Meia Maratona de Alphaville,
se não está descendo, está subindo...

Imagine a seguinte situação: após passar o tapete de largada, nada mais será plano. Novamente, 10, 15 ou 21 Km serão ida e volta, então o alívio da descida agora será o martírio da subida na volta, e vice-versa. Em um comparativo com a prova anterior, considero esta
mais dura, pois o sobe e desce exige bastante da musculatura, especialmente na alternância do movimento. Descer tudo e depois subir, por incrível que pareça, pode até ser mais fácil.

Logo após a largada, em frente à uma faculdade na cidade de Barueri, o corredor tem à sua frente colinas e mais colinas nos arredores, passando por bairros planejados e de condomínios fechados, além de muitos trechos de vias somente com a vegetação ao redor. Mais uma prova com estilo que garante o contato da natureza sem precisar sair do asfalto, mas que exige bastante treino de altimetria.

dados do Strava
Quem está acostumado só com a esteira ou com os parques mais planos, melhor pensar duas vezes antes de enfrentar as pirambeiras desta competição. Mas o esforço vale a pena, apesar dos dias seguintes “de molho” para recuperar a musculatura. E de novo, chuva fina em alguns pontos, abafado em outros, como no caso da Caminhos do Mar.


Na primeira nem dava para pensar em melhorar tempo devido à altimetria brusca da subida, mas na segunda, após passar pelo ponto de retorno de metade do percurso com um tempo muito além do meu normal, resolvi brincar de “split negativo” e tentar fazer a segunda metade em menor tempo que a primeira. E consegui, mesmo que seja por alguns segundos apenas.

Vale a pena considerar estas provas para seu próximo calendário, além de outras bem interessantes do organizador Caminhos do Mar.

(só para lembrar: não é post patrocinado, o organizador não me deu inscrições nem desconto, merece os elogios pela qualidade dos eventos... se tivesse que descer a lenha, eu descia, mas só posso exaltar as duas corridas!)

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Corrida Barão de Jundiahy, do quartel para as ruas

Faltando apenas uma semana para as eleições presidenciais de 2018, entre as inúmeras baboseiras divulgadas pela imprensa e outras mídias, muito se falou do “medo” dos militares. Mas para os corredores que estavam dispostos a enfrentar 5 ou 10 Km no último dia 21 de Outubro, o clima era de alegria e respeito pelo contingente do 12º G.A.C. – Grupo de Artilharia de Campanha em Jundiaí, SP, que abriu as portas para receber os atletas em um percurso duro, no melhor estilo militar.

A Corrida Barão de Jundiahy é organizada pela PROEESP, conhecido organizador de provas no interior de São Paulo, com um calendário bem interessante para quem gosta de sair um pouco da capital paulista para correr. A curta distância até Jundiaí poderia ser feita de carro no próprio dia da corrida, mas fica o conselho de passar o final de semana na agradável cidade ou nos seus belos arredores, apesar do kit poder ser retirado antes da largada. Na opção de retirada na véspera, a entrega ocorreu de forma bem organizada na loja do patrocinador principal, uma empresa de congelados da região. Foram dadas 2 opções de kits para o participante, um mais simples
(e mais em conta, obviamente) e outro com uma camiseta, viseira e sacola camufladas, para que o atleta entrasse no clima das forças armadas.

Ocorreram 2 situações confusas antes da prova, mas nenhuma delas por culpa do organizador. A primeira diz respeito aos sites de inscrição, que mantiveram disponíveis o registro e pagamento até muito próximo do dia do evento, gerando problemas para o organizador na confecção dos números de peito e até mesmo na divisão de kits. Agindo de boa-fé com os corredores, o organizador confirmava verbalmente se o kit escolhido havia sido o simples ou especial, porém nem todos os participantes retribuíram com a mesma honestidade, o que levou a faltar kits especiais. Apesar de não ter sido o meu caso, que recebi
corretamente, conversei com uma pessoa da organização que informou que os corredores receberiam os itens faltantes pelo correio. Outro problema foi o desencontro “nacional” do início do horário de verão, levando alguns (eu inclusive) a chegar uma hora mais cedo do que o necessário na área de largada da prova.

E então, no horário ajustado em apenas 15 minutos (mais a uma hora do tal horário de verão fajuto), teve início a prova com tiro de canhão para os participantes dos 5 Km e após alguns minutos com tiros de fuzil para os corredores dos 10 Km.


Largada dentro do complexo militar, passando pelas áreas internas e entrando em uma dura, dura mesmo, estrada forrada de cascalho por pelo menos 1,5 Km. Em seguida, os corredores saiam para uma avenida em Jundiaí, onde percorreriam mais uns 3 Km e fariam o percurso de volta... novamente pela estrada de cascalho, agora com subidas. 


Tudo muito bem sinalizado e organizado, com a
emocionante chegada no portal cercado por 2 obuseiros (canhões)
da guarnição. Boa dispersão e medalha muito bonita, inclusive com um imã para que possa ser pendurada até em geladeira! E o organizador teve o bom senso de avisar aos participantes que não pendurassem no pescoço caso utilizassem marca-passo...

Mais uma vez, fica o incentivo de sair do circuito normal de corridas na cidade e prestigiar estes eventos no interior. Provas mais simples, mas não por isso menos organizadas e divertidas de participar!

sábado, 29 de setembro de 2018

Melhorias (e algumas falhas) na 26ª Maratona de Revezamento Pão de Açúcar


Correr provas tradicionais é sempre assim, o corredor tem a confiança de que o evento será bem organizado, mas não deixa de ter o olho mais aguçado para encontrar pontos de crítica. Mas como as melhorias superam os poucos erros da 26ª Maratona de Revezamento Pão de Açucar em São Paulo, o saldo positivo é motivo de elogio, dada toda a logística que demanda uma prova com expressivo número de participantes (aproximadamente 16.500 como divulgado no dia seguinte) e em vias importantes da cidade.

Mantendo sua oferta de equipes de 8, 4 ou 2 participantes para completar os 42,2 Km de uma maratona, o percurso de 2018 inovou com um trecho na Av. República
do Líbano, ao lado do Parque do Ibirapuera, que forneceu menos asfalto da Av. 23 de Maio e consequentemente menos sol nos bonés dos corredores. Mais agradável, a avenida arborizada é palco de muitos outros eventos de corrida da cidade, que também ajuda na familiaridade para o atleta que participa de provas na região.

Mas a grande sacada deste ano foi manter todos (sim, todos!) os postos de troca das equipes de 8 atletas dentro do Parque do Ibirapuera, o que evitou o stress de ter que se deslocar até pontos distantes da estrutura de largada/chegada. Quando corri esta prova pela primeira vez em 2006, lembro que era o 2º. atleta de uma equipe de 8, tendo que sair em disparada para um ponto de troca na Av. Rubem Berta, ou seja, foi quase mais uma “perna” de 5 Km de prova,
tendo sido mantido este formato até o ano passado. Já para as equipes de 4 e 2 atletas, os postos de troca estavam bem em frente à área de largada, completando voltas de aproximadamente 10 Km de acordo com a quantidade de atletas no revezamento. Mesmo tendo que fazer 2 voltas para completar os 21 Km da minha parte, achei o percurso novo bem mais agradável, tirando-se, é claro, o calor de mais de 30 graus na segunda metade da prova.


Outro ponto positivo é o preço da inscrição para corredores cadastrados no programa de fidelidade PA Mais, que reduzia em 40% o valor a ser pago para cada atleta. Porém, ao tentar usufruir dos benefícios do cliente da marca através do aplicativo de celular, como anunciado na entrega dos kits, não consegui completar meu cadastro
por erro do programa e não tive acesso à área exclusiva. Também referente aos kits, ao retirar o da nossa dupla os respectivos números de peito não foram localizados, gerando um atraso de mais de 10 minutos para ser atendido, envolvendo 3 funcionários para resolver o problema e recebendo um número que até o momento não tem resultado oficial registrado.

Hidratação perfeita, com água sempre gelada nos postos muito bem espalhados pelo percurso, excelente sinalização e policiamento de trânsito, muitas atrações na arena com espaços dos patrocinadores e muitos brindes, kit melhor que o do ano anterior (camiseta e mochila de melhor qualidade). Ainda há um ponto que precisa muito ser melhorado: a prova possui duração máxima de 5 horas, porém ao passar minha 2ª volta pelo posto de troca das equipes de 8 atletas percebi que ainda havia 2 e até 3 corredores que ainda iriam largar no revezamento em seus times, ou seja, excederiam facilmente o tempo limite, já que completamos nosso percurso de dupla em
(aproximadamente) 4 horas e 30 minutos. Acredito que esta regra precisa ser melhor explicada na inscrição e na retirada de kit, pois muitos corredores vão para a largada com a sensação de que podem caminhar e os outros membros da equipe irão literalmente correr atrás do prejuízo, mas não é assim que funciona em provas de revezamento.


Como disse no início, pequenas situações que não tiram a grandeza de uma prova tradicional e que vale a pena participar. Pena que neste ano só consegui arranjar uma dupla na última semana, pois ninguém queria enfrentar os 21 Km comigo,
o que acarretou em menor preparo para a distância. Agradecimentos, é claro, à colega Ivana que topou mais uma maluquice e à rádio Mix FM 106.3 pelo kit presenteado em uma brincadeira de perguntas e respostas.

domingo, 2 de setembro de 2018

A linha de chegada da Comrades Marathon 2018!


Só quem já entrou na reta final de uma corrida, seja curta ou longa, sabe como é a emoção de estar perto de concluir o objetivo. Ninguém inicia no mundo das corridas com uma maratona ou prova de resistência, a maioria experimenta distâncias como 5 ou 6 Km, talvez até menores, e depois gradativamente evolui para trajetos longos. Este que lhes escreve começou em 2006 em uma prova que possuía as distâncias de corrida 5 Km, 10 Km e caminhada 5 Km, completando esta última e recebendo, extasiado, uma medalha de latão envernizada com o nome da prova e o símbolo de um grande banco (já extinto) que patrocinava o evento, pendurada em uma fita de cetim. Mas não foi isto que me lançou no mundo das corridas, e sim estar na pista contrária da Av. 23 de Maio em São Paulo durante a caminhada e ver a manada de gente vindo do outro lado correndo. Neste momento, o tal bichinho da corrida me picou, e 12 anos depois olha onde eu vim parar... nos metros finais da Comrades Marathon 2018!

Como expliquei no post anterior, apesar de não ter mais as infindáveis subidas e descidas que deixamos para trás no percurso entre as cidades de Pietermaritzburg e Durban, o trecho plano e o tempo de sobra não inspirava ninguém a correr os menos de 2 Km até o gigantesco estádio de futebol Moses Mabhida que nos aguardava ao final. E a medida que nos aproximávamos, a imponente construção, herança da Copa do Mundo de 2010 na África do Sul, parecia cada vez mais grandiosa com suas luzes acessas e a vibração que vinha do público em seu interior. Ao longo da via muitos torcedores nos saudavam, incentivando com as palavras “push! push! push!” que ouvimos várias vezes ao longo do dia, nos meus 90 Km mais incríveis - e únicos, diga-se - que já havia percorrido.


É hora do protocolo final, estamos em terras estrangeiras, um povo amigo e que nem parece estar do outro lado do Oceano Atlântico pelo entusiasmo com que recebe os brasileiros. A palavra “comrades” significa “camaradas” e a prova faz jus ao seu significado, valorizando sua história e tradição. Saquei então a querida bandeira do Brasil, que ia de um braço a outro e ainda acrescentei uma bandeirola da África do Sul, como forma de homenagem e agradecimento a este país incrível que nos dava este evento grandioso. Quando subimos a calçada do estádio, um cronômetro enorme dizia o tempo de prova, e eu tinha mais de 20 minutos para percorrer uns 100 metros até a linha de chegada.

Bom, acho que dá para correr mais um pouco...


(vídeo feito com celular, infelizmente esqueci a câmera de esportes no hotel...)

Deu para escutar no vídeo o berro que eu dei ao embicar na entrada do estádio? A emoção é indescritível, tenho mais de 250 linhas de chegadas em diversos tipos de provas, até mesmo em dois Ironman, mas esta é uma que não se esquece jamais. O público em alvoroço, o locutor incentivando, os corredores animados ao redor. E após 11 horas, 41 minutos e 10 segundos depois de largar, você escuta o beep do seu chip passando sobre o tapete de cronometragem, e entre todos os outros sons ao redor, sabe que aquele ali foi produzido por você. Fim.


Missão cumprida, corredor 33522, estrangeiro, país de origem Brasil, você foi o 13.944º colocado de um total de 19.062 que largaram e concluiu a 93ª. Comrades Marathon, edição 2018. Da largada até a chegada, 90.184 metros de distância. 

Tradicionalmente ela tem apenas 29 milímetros,
menor que a maioria das moedas,
te faz pensar não no tamanho da medalha, mas da conquista
Quanta coisa eu ainda poderia te contar sobre tudo o que envolve a prova, trajeto, chegada, treinos, decepções ao longo do caminho até o grande dia, dor durante o percurso, enfim, um blog não comportaria tudo isso. Mesmo assim, este momento merecia ser compartilhado com quem passa aqui, não para me exaltar, mas para te incentivar a buscar coisas grandes e difíceis, pois as pequenas e fáceis você tem a todo momento.


Hoje é dia 02 de setembro de 2018, em algumas horas as inscrições da Comrades 2019, percurso inverso entre Durban e Pietermaritzburg, vão iniciar. É só acessar o site da prova, preencher o cadastro e pagar, depois são mais de 8 meses para comprovar uma maratona em menos de 5 horas e registrar o resultado, simples assim. Ou não. Dá um enorme aperto no coração saber que nesta próxima não estarei, não por motivo financeiro ou de achar que não conseguiria fazer tudo de novo, mas por ter outros objetivos na corrida para os próximos anos. Minha estória com a Comrades previa uma única conclusão, e assim foi. Em breve, novos desafios.

Mas com certeza o mundo fica menor depois de uma Comrades...



segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Olha eu aí, nas páginas da Revista Contra-Relógio!


Antes de contar sobre os metros finais da Comrades chegando no estádio Moses Mabhida, uma pausa para compartilhar a surpresa gratificante da foto ao lado. Na edição de agosto da Revista Contra-Relógio, importante veículo de informação aos corredores nos últimos 25 anos, foi publicado um texto que escrevi contando como utilizei as planilhas sugeridas pela revista aos leitores para encarar os desafios de maratonas e meias pelo mundo afora. Dada a importância que estas planilhas tiveram em meu planejamento para a ultramaratona, compartilhei com o editor chefe, Tomaz Lourenço, o texto que estampa as páginas 44 e 45 da edição 299 de agosto 2018, onde conto um pouco de como aproveitei o direcionamento das matérias na preparação específica para os 90 Km.

A ausência de provas como a Comrades no Brasil, ou pelo menos corridas em asfalto com percursos acima dos 42.195 metros da maratona, torna difícil para o corredor planejar os treinos voltados à uma competição com características da ultra sul-africana. Tomei como base provas semelhantes, planilhas que indicavam como gerenciar duas maratonas próximas e até mesmo uma sugestão de treino para a Comrades que também já apareceu nas páginas da revista.

Gráfico de Burndown
Semanalmente balizava meus volumes de treinos de corrida com o proposto pela revista, montando alguns gráficos que ajudaram a tomar rumos nos momentos de indecisão. Gostaria de ter seguido à risca as sequências propostas, com treinos de tiros, subidas e rodagens como apresentado pelos profissionais que criaram os estudos, porém muitas vezes elas não se adaptam à uma rotina de escritório, como é o meu caso. Mesmo assim, os volumes de treinos sugeridos mostravam como deveria ser a evolução do treinamento ao longo dos meses, informação de grande valia.

É importante ressaltar que como complemento dos treinos propostos pela revista, que focavam essencialmente na corrida, encaixei musculação, bike ergométrica, máquina de remo e sessões semanais de natação, de forma a liberar o corpo para não trabalhar somente os músculos da corrida. 

a disciplina para preencher tanta informação não é fácil,
mas vale a pena!
Estes treinos extras, aliados ao direcionamento da corrida, permitiram chegar ao final do período sem dores ou lesões, mostrando a importância do planejamento prévio para uma prova deste porte.

Edição 299 - Agosto 2018
Este aqui que lhes escreve corre há mais de 12 anos, e também lê a publicação desde que iniciou suas passadas. E mais uma vez registro meu agradecimento à Revista Contra-Relógio na figura de seu editor Tomaz Lourenço e equipe pela oportunidade de compartilhar esta experiência com os leitores. Minha mais sincera admiração pelos profissionais que contribuem mensalmente com informações tão importantes para os corredores!

(ah sim, eu “desfoquei” propositalmente o texto da minha foto, assim não desrespeito os direitos de publicação da revista e ainda convenço você a comprar a edição para ler a matéria...)

domingo, 5 de agosto de 2018

Comrades Marathon 2018... só faltam mais 45 Km...

Quando você corre uma meia maratona e passa da marca de 10 Km, é uma sensação de alívio te dizendo que metade já foi. Idem para uma meia maratona em um evento de 42 Km, mas, como é esse negócio de já ter concluído mais que uma maratona inteira e ainda ter outra pela frente? Lá vem a segunda parte da Comrades “em descida”, mas como eu já falei no post anterior, o termo é meramente para designar o sentido da prova, pois a altimetria em nada favorece o corredor.

E então, com 05:22:58 horas de tempo de prova desde o tiro inicial, passei pelo tapete de cronometragem do Km 44,28, sendo que ainda faltam 45,92 Km pela frente. É incrível a agitação deste ponto da prova, o negócio é mais festivo do que muita linha de chegada que eu
Halfway 2018-06-10 10.53 am
já vi, e o mais incrível é que não é uma área urbana, mas no meio do caminho entre 2 grandes cidades. Pouco adiante deste ponto descartei minha última peça de roupa extra, uma camiseta velha manga comprida de uma prova de 2009, que estava por baixo da camiseta regata. Ainda fazia bastante frio, pois estávamos próximo ao ponto mais próximo do percurso e ainda sem sol, mas precisava dar por finalizada esta fase de preocupação com peças de roupa para seguir viagem. Fiz isto na frente de uma das vans que ficam posicionadas para levar os corredores que são cortados ou desistem da prova naquele ponto, pois em menos de 50 minutos quem passar por ali não vai poder continuar na corrida. Esta é uma regra que eu apoio totalmente para ser implantada nas provas aqui no Brasil, qualquer distância acima de 21 Km deveria ter pontos de corte, evitando eventos “sem fim” como ocorrem regularmente. Longo assunto, depois conversamos sobre isso em outra ocasião.

Um pouco mais adiante os corredores passam por dois marcos que fazem parte de todo o folclore da Comrades: Arthur’s Seat, uma brecha em na montanha ao lado da estrada, onde diz a lenda um corredor sentava-se para descansar dos treinos e pitar seu cachimbo em paz, hoje homenageado pelos demais com a colocação de folhas e flores durante a prova, e o Wall of Honour, um paredão de placas verdes e amarelas de corredores que literalmente escreveram seus nomes nas provas. Momento registrado, é hora de ir em frente, tem muita estrada para o os tênis devorarem.


As subidas continuavam, e seriam mais 13 Km até o próximo ponto de corte, quando um longo declive se apresentou à frente. Já começou a descida principal da prova? Ainda não, esta é Kloof, apenas uma “amostra grátis” do que está por vir. Foi um momento muito especial da prova para mim, pois fiquei um tempão correndo e conversando com um corredor sul-africano, mais uma das grandes marcas do evento, que recebe muito bem quem está com a camiseta verde e amarelo do nosso país. E assim aproximava-se do ponto de corte do Km 58, onde chegaria com estes números:

Ponto: Winston Park
Distância:  57,61 km      
Tempo: 07:13:01
Velocidade: 07:30 min/km



Um pouco mais adiante da estrutura da prova montada para atender os corredores, novamente algumas vans estacionadas pelo mesmo motivo que já expliquei lá atrás. Parei um pouco e saquei um spray anti-inflamatório para aplicar nas pernas, e o engraçado foi ter que explicar para uma moça da organização que eu estava bem, só me recuperando, e que não, eu não queria entrar na van e ser levado para Durban...

Winston Park 2018-06-10 12.42 am
O tal trecho em descida finalmente chegou e com ele, dores memoráveis nas pernas. Parece fácil falar que vai correr “na descida”, mas quando seu corpo já foi esmerilhado por uma série de sobes e desces pelo caminho, expor a musculatura a uma descida íngreme e com caimento lateral na pista não é nada simples. Caminha-se e bastante neste trecho, pois a configuração da passada muda, e com isto aparecem dores e desconfortos diferentes dos demais experimentados no dia. Também nesta parte da prova alguns dos ônibus e vans que levam os corredores desistentes ou eliminados passa a dividir a pista com os atletas na prova, e acredite, dentro ou fora o olhar é de desânimo, pois é uma cena triste.

Mais um ponto de corte chegou:

Ponto: Pinetown
Distância:  68,86 km      
Tempo: 08:47:37
Velocidade: 07:39 min/km



Uau, só falta uma meia maratona! Pois é, na Comrades tem-se que pensar assim, senão vai tudo pro vinagre. Entramos (finalmente!) em um trecho realmente plano, mas a alegria durou apenas alguns quilômetros, pois Cowies Hill, uma montanha no meio do nosso caminho, apareceu no horizonte para indicar que ainda tínhamos mais algumas subidas pela frente. É impressionante a agitação e empolgação da torcida ao longo da prova, especialmente em trechos difíceis como este. Aqui, quase todo mundo anda, inclusive os Green Numbers, então não vamos querer ser diferentes. É como diria Nelson Mandela: “Depois de escalar uma montanha muito alta, descobrimos que há muitas outras montanhas mais por escalar”. Cowies Hill estava aí pra isso.

Não demorou muito e o último ponto de corte da prova antes da chegada apareceu no radar:

Ponto: Sherwood
Distância:  81,31 km      
Tempo: 10:26:20
Velocidade: 07:42 min/km



Coração na boca, faltam menos de 9 Km e eu tenho mais de uma hora e meia para rodar esta distância! Muita calma nessa hora, o que pode dar de mais errado é uma lesão ou mal-estar, pois a quilometragem não mais assusta. Logo após Tollgate Bridge, outra descida dura, observei a marca de 84 Km, ou seja, até aqui são praticamente 2 maratonas! No mesmo dia, caramba! Mas ainda faltam 6 Km, e eles não foram fáceis. Apesar do trecho plano que dominaria esta última parte, era difícil correr, e a maioria dos atletas
caminhava, pois queria chegar no estádio em pé, correndo e de cabeça erguida. O relógio estava a nosso favor agora, não seria mais possível terminar em menos de 11 horas e ganhar uma Bronze Medal, então a palavra de ordem é gerenciar o que falta.

Entramos na reta final, passando ao lado do estádio Kingsmead, onde a prova terminava nas edições em descida até 2016, porém neste ano foi transferida para o Moses Mabhida Stadium, construído para a Copa do Mundo de 2010 e mais de 1 Km adiante do outro. Mas chegar em um estádio de Copa é muito mais glorioso do que um de críquete, e todos ali estavam ansiosos por inaugurar este novo formato da prova, ninguém parecia incomodado com a distância extra.

Eu prometi 3 posts, mas vou ter que parar aqui e fazer um pouco de suspense de como é terminar a ultramaratona mais famosa do planeta, entrando em um estádio gigantesco e com público nas arquibancadas.


Em breve, a chegada da Comrades Marathon 2018...

(as fotos em que eu apareço nesta postagem foram adquiridas no site Jetline Action Photo