domingo, 5 de agosto de 2018

Comrades Marathon 2018... só faltam mais 45 Km...

Quando você corre uma meia maratona e passa da marca de 10 Km, é uma sensação de alívio te dizendo que metade já foi. Idem para uma meia maratona em um evento de 42 Km, mas, como é esse negócio de já ter concluído mais que uma maratona inteira e ainda ter outra pela frente? Lá vem a segunda parte da Comrades “em descida”, mas como eu já falei no post anterior, o termo é meramente para designar o sentido da prova, pois a altimetria em nada favorece o corredor.

E então, com 05:22:58 horas de tempo de prova desde o tiro inicial, passei pelo tapete de cronometragem do Km 44,28, sendo que ainda faltam 45,92 Km pela frente. É incrível a agitação deste ponto da prova, o negócio é mais festivo do que muita linha de chegada que eu
Halfway 2018-06-10 10.53 am
já vi, e o mais incrível é que não é uma área urbana, mas no meio do caminho entre 2 grandes cidades. Pouco adiante deste ponto descartei minha última peça de roupa extra, uma camiseta velha manga comprida de uma prova de 2009, que estava por baixo da camiseta regata. Ainda fazia bastante frio, pois estávamos próximo ao ponto mais próximo do percurso e ainda sem sol, mas precisava dar por finalizada esta fase de preocupação com peças de roupa para seguir viagem. Fiz isto na frente de uma das vans que ficam posicionadas para levar os corredores que são cortados ou desistem da prova naquele ponto, pois em menos de 50 minutos quem passar por ali não vai poder continuar na corrida. Esta é uma regra que eu apoio totalmente para ser implantada nas provas aqui no Brasil, qualquer distância acima de 21 Km deveria ter pontos de corte, evitando eventos “sem fim” como ocorrem regularmente. Longo assunto, depois conversamos sobre isso em outra ocasião.

Um pouco mais adiante os corredores passam por dois marcos que fazem parte de todo o folclore da Comrades: Arthur’s Seat, uma brecha em na montanha ao lado da estrada, onde diz a lenda um corredor sentava-se para descansar dos treinos e pitar seu cachimbo em paz, hoje homenageado pelos demais com a colocação de folhas e flores durante a prova, e o Wall of Honour, um paredão de placas verdes e amarelas de corredores que literalmente escreveram seus nomes nas provas. Momento registrado, é hora de ir em frente, tem muita estrada para o os tênis devorarem.


As subidas continuavam, e seriam mais 13 Km até o próximo ponto de corte, quando um longo declive se apresentou à frente. Já começou a descida principal da prova? Ainda não, esta é Kloof, apenas uma “amostra grátis” do que está por vir. Foi um momento muito especial da prova para mim, pois fiquei um tempão correndo e conversando com um corredor sul-africano, mais uma das grandes marcas do evento, que recebe muito bem quem está com a camiseta verde e amarelo do nosso país. E assim aproximava-se do ponto de corte do Km 58, onde chegaria com estes números:

Ponto: Winston Park
Distância:  57,61 km      
Tempo: 07:13:01
Velocidade: 07:30 min/km



Um pouco mais adiante da estrutura da prova montada para atender os corredores, novamente algumas vans estacionadas pelo mesmo motivo que já expliquei lá atrás. Parei um pouco e saquei um spray anti-inflamatório para aplicar nas pernas, e o engraçado foi ter que explicar para uma moça da organização que eu estava bem, só me recuperando, e que não, eu não queria entrar na van e ser levado para Durban...

Winston Park 2018-06-10 12.42 am
O tal trecho em descida finalmente chegou e com ele, dores memoráveis nas pernas. Parece fácil falar que vai correr “na descida”, mas quando seu corpo já foi esmerilhado por uma série de sobes e desces pelo caminho, expor a musculatura a uma descida íngreme e com caimento lateral na pista não é nada simples. Caminha-se e bastante neste trecho, pois a configuração da passada muda, e com isto aparecem dores e desconfortos diferentes dos demais experimentados no dia. Também nesta parte da prova alguns dos ônibus e vans que levam os corredores desistentes ou eliminados passa a dividir a pista com os atletas na prova, e acredite, dentro ou fora o olhar é de desânimo, pois é uma cena triste.

Mais um ponto de corte chegou:

Ponto: Pinetown
Distância:  68,86 km      
Tempo: 08:47:37
Velocidade: 07:39 min/km



Uau, só falta uma meia maratona! Pois é, na Comrades tem-se que pensar assim, senão vai tudo pro vinagre. Entramos (finalmente!) em um trecho realmente plano, mas a alegria durou apenas alguns quilômetros, pois Cowies Hill, uma montanha no meio do nosso caminho, apareceu no horizonte para indicar que ainda tínhamos mais algumas subidas pela frente. É impressionante a agitação e empolgação da torcida ao longo da prova, especialmente em trechos difíceis como este. Aqui, quase todo mundo anda, inclusive os Green Numbers, então não vamos querer ser diferentes. É como diria Nelson Mandela: “Depois de escalar uma montanha muito alta, descobrimos que há muitas outras montanhas mais por escalar”. Cowies Hill estava aí pra isso.

Não demorou muito e o último ponto de corte da prova antes da chegada apareceu no radar:

Ponto: Sherwood
Distância:  81,31 km      
Tempo: 10:26:20
Velocidade: 07:42 min/km



Coração na boca, faltam menos de 9 Km e eu tenho mais de uma hora e meia para rodar esta distância! Muita calma nessa hora, o que pode dar de mais errado é uma lesão ou mal-estar, pois a quilometragem não mais assusta. Logo após Tollgate Bridge, outra descida dura, observei a marca de 84 Km, ou seja, até aqui são praticamente 2 maratonas! No mesmo dia, caramba! Mas ainda faltam 6 Km, e eles não foram fáceis. Apesar do trecho plano que dominaria esta última parte, era difícil correr, e a maioria dos atletas
caminhava, pois queria chegar no estádio em pé, correndo e de cabeça erguida. O relógio estava a nosso favor agora, não seria mais possível terminar em menos de 11 horas e ganhar uma Bronze Medal, então a palavra de ordem é gerenciar o que falta.

Entramos na reta final, passando ao lado do estádio Kingsmead, onde a prova terminava nas edições em descida até 2016, porém neste ano foi transferida para o Moses Mabhida Stadium, construído para a Copa do Mundo de 2010 e mais de 1 Km adiante do outro. Mas chegar em um estádio de Copa é muito mais glorioso do que um de críquete, e todos ali estavam ansiosos por inaugurar este novo formato da prova, ninguém parecia incomodado com a distância extra.

Eu prometi 3 posts, mas vou ter que parar aqui e fazer um pouco de suspense de como é terminar a ultramaratona mais famosa do planeta, entrando em um estádio gigantesco e com público nas arquibancadas.


Em breve, a chegada da Comrades Marathon 2018...

(as fotos em que eu apareço nesta postagem foram adquiridas no site Jetline Action Photo

quinta-feira, 19 de julho de 2018

Comrades Marathon 2018... os primeiros 45 Km


Domingo, 10 de Junho de 2018, 05:30 horas da manhã, Pietermaritzburg, África do Sul, temperatura próxima dos 5 graus Celsius. Em uma avenida à frente da sede da prefeitura da cidade, quase 20 mil atletas amadores e alguns poucos profissionais se aglomeravam aguardando o início da 93ª. Edição da Comrades Marathon. Neste ano a prova será em “descida”, chegando até a cidade de Durban, no litoral do Oceano Índico. A distância oficial é de 90.184 metros, um pouco mais que nas edições anteriores pois a novidade para este ano é finalizar no estádio Moses Mabhida, ao invés do tradicional estádio Kingsmead. Para se ter uma ideia, uma maratona tem a distância oficial de 42.195 metros, portanto esta prova equivale a 2 maratonas + 5.794 metros, em um mesmo dia, com pontos de corte ao longo do percurso e tempo máximo de conclusão de 11:59:59. Há um porém, este tempo não é considerado do momento que o corredor passa pelo tapete de cronometragem, mas sim a partir do tiro de largada, então cada segundo conta.



neste vídeo foi possível capturar a excitação da largada, 
com toda a sequência tradicional do início da prova

Uma vez que a prova exige a comprovação de tempo para validar a inscrição e definir o pelotão de largada do corredor, já dá para imaginar que ficar nas posições mais distantes do pórtico só vai trazer mais asfalto a ser percorrido. No meu caso, estava no pelotão F, ainda à frente do G e H, porém com tanta gente à minha frente que demorei 8 minutos para passar oficialmente pelo tapete, tempo que já estava sendo contabilizado no total. Cruel? Sim, não será um dia fácil, muitos guerreiros ficarão pelo caminho e cada um ali sabe a responsabilidade que tem. Ninguém os obrigou a estar naquela madrugada fria alinhados na largada, chegaram até ali por livre e espontânea vontade.

O termo “descida” para designar as edições que ocorrem nos anos pares é meramente ilustrativo, diz apenas que parte-se de uma cidade do interior e chega-se a uma cidade litorânea, onde naturalmente a elevação irá cair até o nível do mar. O percurso é uma montanha-russa de sobes e desces intermináveis, alguns com muitos
quilômetros, o que deixa os novatos pensando sobre se haviam comprado o produto correto na inscrição. Ainda escuro, e com alguns trechos um pouco mais afunilados, esta trupe vai se esbarrando e se ajudando como pode, diversos “sorry” são ouvidos, água é passada dos mais na ponta para os que estão no centro da massa de gente, tapinhas nas costas e muitos grupos correndo junto. Sem contar os “ônibus”, grupos guiados por corredores experientes, oficiais da prova, que guiam um grupo de atletas para a conclusão em um determinado tempo limite. Pontuais como coletivos urbanos, eles chegam a cada meia hora no destino, sempre com um corredor
Camperdown 2018-06-10 08.39 am
levando uma plaqueta com tempo previsto e o nome do atleta. Para quem consegue seguir o ritmo deles, ótimo, mas não é fácil, os “bus drivers” já sabem em que ponto diminuir o ritmo ou aumentar, e isto pode não ser muito compatível com sua estratégia de prova.

Comecei minha jornada no ritmo planejado, apesar de que não podia apertar muito devido ao pelotão compacto em que estava. Aqui no Brasil sempre se escuta um ou outro apressadinho gritando “abre! abre!” nas corridas, mas lá estavam todos gerenciando seu esforço. Passei o primeiro ponto de corte com o resultado abaixo:

Ponto: Lion Park
Distância:  15,57 km      
Tempo: 1:58:04
Tempo máximo: 02:30:00
Velocidade: 7:35 min/km


Veja que apesar da baixa velocidade para uma corrida, estava com uma folga de quase 32 minutos, o que precisava ser gerenciado ao longo do percurso. A prova seguiu, e o sobe e desce de montanhas, sempre asfaltadas, castigava o corpo incessantemente. Apesar de dificilmente alguém ser cortado neste primeiro ponto, nos demais a estória já é outra, pois será uma surra atrás da outra ao longo do trajeto, cada subida demanda esforço, e não pense que as descidas não causam estrago também.

Cato Ridge 2018-06-10 09.49 am
Com o dia já raiando, percebia-se que não seria muito ensolarado, mas possivelmente contrariando a previsão de tempo que havia dado o prognóstico de chuva no percurso. É interessante destacar que devido à prova acontecer nesta época do ano e a temperatura ser algo próximo do que seria na região Sul do Brasil, os corredores costumam largar com camadas extras de roupas, que são abandonadas ao longo do caminho e recolhidas pela organização para direcionamento à entidades assistenciais. Eu já havia descartado alguns itens, mas ainda estava com gorro de lã, luvas e uma camiseta que ficariam pelo caminho mais adiante.

Cheguei então ao próximo ponto de corte:

Ponto: Cato Ridge
Distância:  30,28 km      
Tempo: 3:40:14
Tempo máximo: 04:20:00
Velocidade: 7:17 min/km


Sim, eu estava 40 minutos adiantado, mas não é hora de euforia, afinal até aqui temos somente 1/3 da prova. Duras subidas irão bater de frente com os corredores neste trecho, pois nos dirigimos ao ponto mais alto do percurso, mais de 800 metros acima do nível do mar, o que é mais ou menos como estar na Av. Paulista.

Contando um pouco sobre a estrutura da prova, são mais de 40 mesas de hidratação espalhados pelos 90 Km, e não são mesinhas com água apenas: Coca-Cola, isotônico de vários sabores, batatas, doces e algumas ainda contam com equipe para aplicação de gel de
Inchanga 2018-06-10 10.43 am
arnica e massagem. É uma estrutura que muito corredor nem sonha que existe, um evento de proporções gigantescas. Eu diria apenas que a prova precisaria de mais banheiros químicos, mas muito corredor se arranjou nas moitas ao lado da rodovia mesmo.

Com a aproximação da metade da prova, uma subida pesada e longa se apresentou diante dos corredores, levando muitos a caminhar por longos períodos. Quando o atleta completa 10 edições da Comrades ele ganha o Green Number, e este número será sempre seu, sendo que a cada retorno à prova ele recebe o número de peito e costas na cor verde. Olhando ao meu redor eu via muitos Green Numbers andando, e esses caras sabem o que fazem.

Cheguei então à metade da prova:

Ponto: Drummond
Distância:  44,27 km      
Tempo: 5:22:48
Tempo máximo: 06:10:00
Velocidade: 7:18 min/km


Ainda muito adiantado em relação ao tempo de corte.

Mas já foi uma maratona, e agora?

Eu te conto em breve...

(as fotos que aparecem nesta postagem foram adquiridas no site Jetline Action Photo

                                               

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Comrades Marathon 2018... 90 Km. Sim, eu fiz!


Continuando o post anterior, agora você entende o motivo de correr 2 maratonas com apenas 2 semanas de intervalo. A insanidade nada mais era do que um treino para correr 2 maratonas + 6 Km de uma só vez, em um dia apenas, com pontos de corte apertados e com uma altimetria de dar medo a qualquer um. Como descrever em um humilde blog como este um evento tão grandioso como a Comrades Marathon? A prova acontece na África do Sul todos os anos desde 1921, com pausa apenas no período da II Guerra Mundial, sendo um ano em “descida” indo da cidade de Pietermaritzburg até Durban, e no seguinte ao contrário, em “subida”. Porém estes termos dizem respeito apenas a uma parte do perfil altimétrico, na verdade a corrida é recheada de subidas e descidas, o que esmigalha qualquer corpo humano, bem treinado ou não. Pois é, resumir em um post apenas é impossível, escrever um livro aqui neste espaço também não é ideal, então vamos sintetizar como foi esta experiência, e quem sabe eu te motivo a fazer o mesmo algum dia.

Dividirei este assunto em 3 postagens, assim consigo passar um conteúdo decente ao leitor. Vamos começar com as informações gerais do evento.

Vou me inscrever então, eeeba!

A prova possui um limite de participantes de aproximadamente 20.000 atletas, às vezes estendido por uma ou outra ocasião que justifique. A única distância é a completa, 87 Km em subida e 90 Km (antes 89) em descida. O Km extra neste ano foi devido à chegada no estádio Moses Mabhida, construído para a Copa do Mundo de Futebol de 2010, e que fica a alguns quarteirões da chegada anterior, o estádio de críquete Kingsmead. O processo de inscrição é muito simples, o site está totalmente em inglês, porém é necessário que o atleta apresente entre maio do ano da competição e agosto do ano anterior ao menos uma maratona ou outros eventos como ultras ou Ironman em tempos consideráveis, sendo que quanto melhor o tempo apresentado, melhor o posicionamento de largada. O tempo máximo que pode ser apresentado como comprovação é de 5 horas na maratona, porém isto coloca o corredor no último pelotão, e largar com 20.000 pessoas à sua frente não é fácil, pois a prova possui um tempo limite de 11:59:59 para conclusão, pontos de corte ao longo do percurso e o tempo é contado a partir do tiro de largada, e não da passagem pelo tapete de cronometragem.

pontos de corte do percurso

Ou seja, perder 10 a 15 minutos para passar pelo pórtico é tempo de prova, não descontado do tempo limite! O valor é um pouco salgado mas não é nenhum absurdo, o equivalente a uns USD 220, mas dada a estrutura da prova, é totalmente justificável. Geralmente abertas entre setembro e novembro do ano anterior à prova, as inscrições costumam esgotar no máximo em outubro. Como é que é, 20 mil inscritos para uma ultramaratona, e esgotam as inscrições? Sim, é isso mesmo.

Deve ser complicado para chegar lá...

Bom, você vai ter que cruzar o Oceano Atlântico. Pode parecer uma fortuna, porém se comprada com antecedência a passagem pode sair mais barato do que uma dentro da América do Sul. São 2 voos para ir e 2 para voltar no mínimo, do Brasil até Johanesburgo e de lá até Durban, mas mesmo assim um pouco de planejamento resolve a questão. Lembre-se, como as inscrições encerram relativamente rápido, não há motivos para deixar a passagem para a última hora.

E aonde eu fico?

Durban é uma joia às margens do Oceano Índico, portanto uma cidade turística com excelentes opções de hotéis. Já Pietermartizburg não possui este apelo, portanto com opções de hospedagem mais restritas. Ficar em Durban e ir para a Maritzburg (como o povo de lá mesmo se refere à outra cidade) é a melhor opção, mesmo que a prova parte desta, pois ônibus da própria organização levam os corredores até a largada. Agências de turismo aqui do Brasil operam com pacotes onde é possível contratar os dias de hospedagem em uma e passar a noite na cidade de largada hospedado em um hotel. Mas se você pensa que vai dormir na véspera, pode esquecer, a tensão é alta...

A feirinha... feirinha nada, aquilo sim é “feira”!

Tem coisa mais enfadonha do que pegar kit de prova aqui no Brasil? No geral o máximo que se tem de boas recordações é encontrar os colegas, mas sem muito o que fazer. Lá, a estória é outra. Começa com o atendimento separado para os estrangeiros, sempre muito bem recebidos pelos sul-africanos, especialmente se você for brasileiro. Tudo rápido, organizado, e um kit recheado de brindes. O chip de cronometragem deve ser comprado, e mesmo que você não tenha um ainda, na própria inscrição já é possível fazer o pagamento e adquirir, sendo que ele é usado não só na Comrades, mas em outras provas da África do Sul.



Depois de pegar o kit, você vai ter um pavilhão inteiro com estandes de roupas, corridas no país, novidades do mundo running, souvenires, praça de alimentação, espaço de palestras e uma gigantesca loja da marca esportiva que estiver patrocinando a corrida com diversas peças de roupa com o logotipo do evento. Leve um “trocadinho” para gastar nesta feira, você não vai resistir, mas contenha-se em ficar batendo perna durante horas pois você terá um longo caminho no dia da corrida.




O Museu da Comrades

Você leu direito, a prova é um patrimônio nacional, tem até mesmo uma espécie de museu, com diversos artefatos doados pelos campeões, painéis, uma maquete interativa do percurso e muita, muita história registrada. Fica em Pietermaritzburg, vale a pena conhecer.





A noite que antecede o evento

Faça o que você tiver que fazer, mas acredite, você vai dormir pouco. É claro que você não vai passar a noite em um dos cassinos da África do Sul, mas pode esquecer que sono você não vai ter. A largada é às 05:30 pontualmente, então o mínimo que você vai ter que acordar é lá pelas 03:00, supondo que você está dormindo na cidade de largada. E o nervosismo, você acha mesmo que consegue pregar os olhos? Vai por mim, tente descansar o máximo que puder quando tiver um tempo.

E agora, deixo você no suspense, na próxima postagem vou contar como é enfrentar 90 Km de estrada, cruzar montanhas, passar o dia a base de gel de carboidrato e outras pequenas porções de alimentos, beber muita água, isotônico e Coca-Cola, tudo isso para percorrer sobre as próprias pernas a distância entre duas cidades na África do Sul...

terça-feira, 19 de junho de 2018

Como é correr 2 Maratonas com 2 semanas entre elas

OK, OK, eu sei que não é nenhum fato inédito e tem gente que faz coisa muito pior. Meu ídolo Dean Karnazes correu 50 maratonas (distância na verdade) em 50 estados norte-americanos em 50 dias consecutivos, mas ele é “o cara” e eu sou “um cara”. Então, por não ser nada tão digno para ser convidado para o próximo filme dos Vingadores, vou compartilhar a experiência de mais uma insanidade.

Maratona Internacional de São Paulo, 08/04/2018

Todo ano é a mesma coisa: “ano que vem eu não vou, prova encardida, precisa melhorar muito!”, é o mantra entoado geralmente logo após a chegada, com as pernas doloridas e desidratado. Mas eu não aguento, basta chegar um e-mail de primeiro lote com preço promocional, e o irresponsável aqui paga a inscrição mesmo sem ter o planejamento de provas do ano seguinte.
É nitidamente uma estória de amor e ódio de quase 10 anos entre eu e a nossa principal prova de 42 Km na cidade, que agora disputa com outra seu lugar ao sol. Aliás, sol é o que não falta todo ano na Maratona de São Paulo, por mais que a organização tente puxar a data para o início do outono, sempre espirra uns raios do astro rei no final para os mais lentos, tipo eu.

Não vou falar muito desta prova, tem posts anteriores que a descrevem bem, basta mencionar que foi o melhor tempo que tive na danada, 04:27:48. Larguei forte para aproveitar o clima nublado que persistiu até o trecho da USP, inclusive na pentelha Av. Politécnica. Depois, com o sol, resolvi diminuir um pouco e aproveitar para preservar a carroceria, afinal, na sequência tinha mais asfalto me esperando....

Interlúdio: Treinar ou Polir?

O tal período de “polimento”, onde são feitos treinos leves, foi para o espaço. Entre uma maluquice e outra, deveria levar na boa as duas semanas, onde saí bem dolorido da Maratona de São Paulo, mas o fato é que eu me cobrei 49 Km de treinos na primeira semana e mais 48 na segunda. Não tem segredo, porém duas coisas contribuíram muito: a natação, dois dias após a prova, onde pude soltar os músculos doloridos e na quinta-feira um pequeno treino regenerativo na esteira. Comecei duro, no Km 1 pensei que não ia aguentar correr, quando cheguei no 2 estava bem, e no 3, onde deveria parar, tive vontade de continuar correndo.

Ou seja, back in business...

Maratona Nilson Lima de Uberlândia, 22/04/2018

Adorei conhecer Uberlândia, cidade grande do interior de Minas Gerais, uma joia do nosso Brasil. Povo muito bacana, corredores recepcionados no aeroporto, excelente hotel Gran Executive muito
flexível para acomodar a todos e prover a melhor experiência de estadia, e é claro, muito, mas muito, pão de queijo daqueles deliciosos que só nossos vizinhos mineiros sabem fazer. 

Antes da prova, no hotel uma palestra com ilustres ultramaratonistas: o próprio Nilson Lima que dá nome ao evento (até aquele momento, 195 maratonas em todos os cantos do planeta), Nato Amaral, embaixador brasileiro da Comrades, e Bruce Fordyce, 9 vezes campeão
Nato Amaral lançando seu livro...
da Comrades Marathon. Sim, não bastasse este sensacional atleta sul-africano ter corrida a ultramaratona de aproximadamente 90 Km várias vezes, ainda colecionava 9 vitórias e diversos recordes. Pessoa alegre, falava em inglês com tradução do Nato, contou de sua estória de vida na Comrades, 
sobre os, literalmente, altos e baixos do percurso e do que nos esperaria em qualquer sentido da prova. Falou de outros grandes nomes que marcaram a competição e das tradições que envolvem a Comrades. Na sequência, um excelente jantar de massas para dar um carbo load nos corredores para o dia seguinte. Nato
...e Bruce Fordyce também
autografando o volume
também estava lançando seu livro
90 Km, que já estou lendo e recomendo totalmente para quem gosta de longas distâncias e quer saber um pouco mais sobre a Comrades. 

Chega então o domingo da prova, e este pangaré aqui tem a difícil tarefa de descobrir se ele realmente tem bagagem suficiente para correr outra maratona. O dia seria ensolarado, mas a temperatura estava muito agradável, começando nos 16 graus Celsius e podendo chegar até 25 perto do final da prova, porém o percurso iria mostrar que subidas e descidas castigam mais do que a própria sensação térmica. Largaríamos às 06:30 da manhã, horário sensacional, pena que devido à uma questão de tráfego urbano atrasou um pouco, mas nada que prejudicou aproveitar o ar frio da manhã. Ainda tive tempo de tirar uma foto com Bruce Fordyce na largada, coisa que todo corredor queria fazer, é claro, mas roubei o atleta sul-africano dos demais para um selfie de última hora.

A prova mostrou-se logo de cara dura e bem organizada, apesar de que eu tinha planejamento para cada 5 Km e as placas eram de 2 em 2, ou seja, nos ímpares eu tinha que fazer contas para ver se estava no meu ritmo planejado. É curioso que eu dispunha de relógio com GPS e celular com softwares de corrida, mas queria sentir um pouco de como é correr só com o cronômetro e saber os tempos que deveria fazer, sem música e sem meu copiloto no celular me dizendo distância e ritmo (e errando muito como sempre). O percurso ia praticamente até a região do aeroporto da cidade, com passagem por um condomínio fechado e até mesmo o famoso Parque Sabiá, onde acontecia uma final de vôlei feminina com o time local e ouvia-se a torcida em polvorosa ao passarmos na região. Neste trecho do condomínio, cheguei a conversar um pouco com o próprio Nilson Lima, pessoa incrível, que nos recebia em sua cidade de braços abertos, e garanti que divulgaria a prova para os corredores de São Paulo, que mereciam saber da existência de uma prova tão incrível como aquela.

Lembre-se, eu havia corrido a Maratona de São Paulo 2 semanas antes, então colocar tempo em uma outra maratona tão próxima seria insanidade. Mesmo assim eu queria terminar em 04:29:29, considerando uma margem de erro de até 5 minutos a mais, e consegui errar por apenas 35 segundos, terminando com 04:30:34. Um resultado inédito, pois eu nunca havia conseguido gerenciar tão bem o esforço de uma prova longa.

Sobrevivi para contar

Durante 2 semanas eu havia percorrida quase 200 Km sobre as pernas, e isto não é um feito a ser menosprezado quando se fala de corrida, especialmente quando se trabalha sentado quase o dia todo. Também nunca havia colocado uma carga tão grande de uma só vez, foi um risco, porém controlado e com objetivo definido.

Como?

Se você quer fazer alguma coisa do tipo, procure um treinador, mas se não tem, como é o meu caso, reúna o máximo de informações possível. Treine, anote, comente, ajuste, planeje e revise. Meros mortais que levam vida de escritório conseguem sim fazer este tipo de maluquice, mas não é só calçar o tênis e sair por aí, precisa de bagagem. No meu caso, foram 22 maratonas antes destas duas, além do quadro de medalhas aí a lado.

E para quê isso?

Eu já te conto, na próxima postagem...

terça-feira, 17 de abril de 2018

Corrida na Telinha


Chegou daquele longão e só quer ficar no sofá zapeando canais, ou melhor, buscando alternativas nos serviços de video por demanda? Bom, se quiser continuar no pique da corrida, a Netflix oferece umas opções bem interessantes para quem quer se distrair com filmes, documentários e similares sobre o esporte. Veja bem, não estou sendo patrocinado, mas como eu sou usuário do serviço, aqui vão algumas recomendações que valem a pena dar uma conferida, e uma vez que o algoritmo deles que tenta advinhar o que você gosta nem sempre acerta, nada como buscar a informação aqui no blog (se clicar no título, um pouco mais de informações e trailers no site IMDB):



The Race That Eats Its Youngs: o subtítulo é a melhor descrição desta modesta ultramaratona pelas montanhas e trilhas do Tenesee, algo do tipo “a corrida que devora seus próprios filhos”. Tudo começa com um sujeito, Gary “Lazarus Lake” Cantrell, que resolve criar um evento onde cada corredor daria 5 voltas em um percurso montanhoso, cada uma com uns 40 Km cada, mas com obstáculos e instruções nada fáceis de enfrentar. Talvez por não ser muito comum no Brasil este tipo de prova fique difícil traçar um parâmetro da dificuldade, mas para que o espectador tenha uma ideia, logo no início já se explica quem nos primeiros 25 anos de existências, apenas 10 corredores terminaram o percurso. E aí, vai encarar?

 

O documentário que mostra a estória de um grupo de americanos obesos que decide mudar de vida e perder peso, assimilando entre outros hábitos, a corrida de rua. Um time formado por blogueiros e outros convidados com os mesmos interesses em entrar em forma resolve se juntar de diversas partes do continente norteamericano para correr a Ragnar Relay, prova de revezamento na Flórida, um percurso de 200 milhas (aproximadamente 320 Km) apoiados por suas equipes acompanhando em duas vans. É um filme do tipo “a corrida salvou minha vida”, como tantas outras estórias, mas vale a pena, o exemplo de dedicação do grupo, contando e mostrando fotos do antes e depois é impressionante, estórias de vida que realmente mudaram com o hábito da corrida.


Aqui o assunto não é corrida, mas sim o triatlon, especificamente o Ironman. Encontrei uma produção espanhola chamada “100 metros”, onde a resenha informava que o enredo tratava de um homem diagnosticado com esclerose múltipla e que decidia fazer um Ironman. Ficção demais? Esta era a estória real de Ramón Arroyo, e para quem acha que só Hollywood produz filmes magníficos, é hora de repensar os conceitos. Muito da trama é a receita padrão das produções esportivas que já assistimos milhões de vezes: mudança radical na vida de alguém (que é um atleta mas ainda não sabe), conflitos familiares, algumas piadinhas bem encaixadas, um treinador que tem um passado no esporte (oops, spoiler!), mais conflitos e um trecho final daqueles de arrepiar os pelos do tapete da sala.


Uma estória de corridas em pista e Olimpíadas que nem todo mundo conhece, e que vale a pena não só pelo trocadilho (Race = Corrida ou Raça) mas pelo conteúdo dramático de todo racismo que existia na época. A trajetória de Jesse Owens é contada mostrando como a sociedade da época se comportava com a presença de negros, inclusive com o ponto alto os Jogos Olímpicos de 1936 onde o atleta bate a “supremacia ariana” bem debaixo do nariz de Hitler e seus generais. Produção hollywoodiana, excelente.


Muitos brasileiros trocam o mau hábito do sedentarismo, o cigarro ou muitos outros vícios pela corrida, e a maioria se orgulha do resultado. Mas neste documentário, a realidade retratada é um pouco, ou melhor, bem diferente da nossa: no Quênia, onde os números mostram mais de meio milhão de armas ilegais e violência altíssima, o governo ofereceu aos ladrões de gado anistia e um par de tênis de corrida para quem entregasse suas armas voluntariamente. E esta é a estória de 2 indivíduos que aceitaram a oferta, mesmo já possuindo um passado de violência e mortes. O interessante desta produção canadense é o rumo que cada um toma após iniciar seus treinos, mas não vou contar aqui para não gerar spoilers. E para quem acha que o país que mais produz campeões nas competições incentiva cegamente o ingresso no esporte, preste bastante atenção como a família trata os troféus conquistados, que a menos que coloquem comida na mesa, são meras tranqueiras para serem exibidas.


Saindo cada vez mais de Hollywood, vamos para a Coréia do Sul (sério?) com esta produção que mostra a estória de um garoto autista cuja mãe observou que a corrida o deixava mais calmo e concentrado, e que incentivado pelo professor de natação se inscreve... em uma maratona. Bom, sabemos que existem “etapas” na vida de qualquer corredor para chegar aos 42.195 metros de uma maratona, mas o filme é inspirado, e não baseado, em fatos reais, e a trama conduz a um desfecho muito bonito. Interessante observar os personagens como o treinador que não está nem aí para o pupilo (até rouba seu lanche), a mãe que muda de ideia sobre a competição e a visão de como a corrida pode ser interpretada por um autista. Sim, vale muito a pena conferir.


Vai acontecer de você em algum momento pensar que um filme é sobre corrida... e acaba sendo outra coisa que não esperava. É o caso desta produção Argentina, meio suspense, meio dramalhão, a única ligação com a corrida é o fato do protagonista sair para correr pelas belas paisagens planas e frias de Buenos Aires, mas mesmo assim não encantou muito. Fica a resenha, não a dica.

É possível que novos títulos apareçam, afinal a programação destes serviços de video por demanda é dinâmica e muda constantemente. Porém quanto mais você assistir (e classificar!) este tipo de produção, mais ela irá surgir em sua lista de sugestões.

Quer contribuir com algum título? Fique à vontade para sugerir nos comentários do post.

P.S.: o blogueiro não está sumido porque só assiste TV, na verdade o que mais faço é correr... quem sabe daqui a algum tempo eu não tenha algo totalmente inédito para contar aqui...

 


domingo, 31 de dezembro de 2017

O momento mais incrível de 2017

Como eu disse no post anterior, ainda tinha mais um assunto para este fim de ano, e guardei para o final a recordação do melhor momento de 2017. Foram muitas linhas de chegada, medalhas, kits, mas neste ano que passou tive a satisfação de participar do grupo Pernas de Aluguel na SP City Marathon, correndo, ajudando a conduzir e conferindo de perto a alegria e seriedade da equipe. Segundo o próprio site do Pernas de Aluguel, o objetivo é “promover diversão para pessoas com deficiência motora e proporcionar aos atletas voluntários a oportunidade de transformar a linha de chegada em algo mais especial do que normalmente é.”. Cada palavra desta frase faz todo o sentido quando se está no grupo, e fico até um pouco chateado de não ter conseguido participar de outras provas, a única que estava inscrito e que coincidia com meu calendário era a SP City Marathon. A seriedade do trabalho é tão grande, que não são permitidos “pipocas” nas provas em que a equipe está, mesmo com a camiseta oficial.
Corri com o grupo até o Km 20, quando havia a separação entre a Maratona e a Meia, pois eles estavam participando a prova de 21 Km e eu estava inscrito na outra. Perdi a festa da linha de chegada, que tenho certeza ter sido incrível.

Não é para bater palmas para mim, bate palmas para eles, pela dedicação e espírito de doação
de seu tempo (e de suas pernas) para quem gosta de sentir a emoção da corrida, mas que depende de outros atletas para realizar seu sonho. Da minha parte, pretendo participar novamente, sei que minha contribuição foi pequena desta vez.

Sem aqueles votos cafonas de fim de ano, deixo um pensamento para sua corrida em 2018: doe-se um pouco mais daqui para a frente, seja em um grupo como o Pernas de Aluguel, inscrevendo-se como guia voluntário, incentivando aquele seu colega que quer começar a correr ou até mesmo doando aquelas suas camisetas e sacolinhas de provas. Sua corrida será melhor, eu garanto, não só em 2018 mas sempre!

Feliz Ano Novo!