quarta-feira, 4 de julho de 2018

Comrades Marathon 2018... 90 Km. Sim, eu fiz!


Continuando o post anterior, agora você entende o motivo de correr 2 maratonas com apenas 2 semanas de intervalo. A insanidade nada mais era do que um treino para correr 2 maratonas + 6 Km de uma só vez, em um dia apenas, com pontos de corte apertados e com uma altimetria de dar medo a qualquer um. Como descrever em um humilde blog como este um evento tão grandioso como a Comrades Marathon? A prova acontece na África do Sul todos os anos desde 1921, com pausa apenas no período da II Guerra Mundial, sendo um ano em “descida” indo da cidade de Pietermaritzburg até Durban, e no seguinte ao contrário, em “subida”. Porém estes termos dizem respeito apenas a uma parte do perfil altimétrico, na verdade a corrida é recheada de subidas e descidas, o que esmigalha qualquer corpo humano, bem treinado ou não. Pois é, resumir em um post apenas é impossível, escrever um livro aqui neste espaço também não é ideal, então vamos sintetizar como foi esta experiência, e quem sabe eu te motivo a fazer o mesmo algum dia.

Dividirei este assunto em 3 postagens, assim consigo passar um conteúdo decente ao leitor. Vamos começar com as informações gerais do evento.

Vou me inscrever então, eeeba!

A prova possui um limite de participantes de aproximadamente 20.000 atletas, às vezes estendido por uma ou outra ocasião que justifique. A única distância é a completa, 87 Km em subida e 90 Km (antes 89) em descida. O Km extra neste ano foi devido à chegada no estádio Moses Mabhida, construído para a Copa do Mundo de Futebol de 2010, e que fica a alguns quarteirões da chegada anterior, o estádio de críquete Kingsmead. O processo de inscrição é muito simples, o site está totalmente em inglês, porém é necessário que o atleta apresente entre maio do ano da competição e agosto do ano anterior ao menos uma maratona ou outros eventos como ultras ou Ironman em tempos consideráveis, sendo que quanto melhor o tempo apresentado, melhor o posicionamento de largada. O tempo máximo que pode ser apresentado como comprovação é de 5 horas na maratona, porém isto coloca o corredor no último pelotão, e largar com 20.000 pessoas à sua frente não é fácil, pois a prova possui um tempo limite de 11:59:59 para conclusão, pontos de corte ao longo do percurso e o tempo é contado a partir do tiro de largada, e não da passagem pelo tapete de cronometragem.

pontos de corte do percurso

Ou seja, perder 10 a 15 minutos para passar pelo pórtico é tempo de prova, não descontado do tempo limite! O valor é um pouco salgado mas não é nenhum absurdo, o equivalente a uns USD 220, mas dada a estrutura da prova, é totalmente justificável. Geralmente abertas entre setembro e novembro do ano anterior à prova, as inscrições costumam esgotar no máximo em outubro. Como é que é, 20 mil inscritos para uma ultramaratona, e esgotam as inscrições? Sim, é isso mesmo.

Deve ser complicado para chegar lá...

Bom, você vai ter que cruzar o Oceano Atlântico. Pode parecer uma fortuna, porém se comprada com antecedência a passagem pode sair mais barato do que uma dentro da América do Sul. São 2 voos para ir e 2 para voltar no mínimo, do Brasil até Johanesburgo e de lá até Durban, mas mesmo assim um pouco de planejamento resolve a questão. Lembre-se, como as inscrições encerram relativamente rápido, não há motivos para deixar a passagem para a última hora.

E aonde eu fico?

Durban é uma joia às margens do Oceano Índico, portanto uma cidade turística com excelentes opções de hotéis. Já Pietermartizburg não possui este apelo, portanto com opções de hospedagem mais restritas. Ficar em Durban e ir para a Maritzburg (como o povo de lá mesmo se refere à outra cidade) é a melhor opção, mesmo que a prova parte desta, pois ônibus da própria organização levam os corredores até a largada. Agências de turismo aqui do Brasil operam com pacotes onde é possível contratar os dias de hospedagem em uma e passar a noite na cidade de largada hospedado em um hotel. Mas se você pensa que vai dormir na véspera, pode esquecer, a tensão é alta...

A feirinha... feirinha nada, aquilo sim é “feira”!

Tem coisa mais enfadonha do que pegar kit de prova aqui no Brasil? No geral o máximo que se tem de boas recordações é encontrar os colegas, mas sem muito o que fazer. Lá, a estória é outra. Começa com o atendimento separado para os estrangeiros, sempre muito bem recebidos pelos sul-africanos, especialmente se você for brasileiro. Tudo rápido, organizado, e um kit recheado de brindes. O chip de cronometragem deve ser comprado, e mesmo que você não tenha um ainda, na própria inscrição já é possível fazer o pagamento e adquirir, sendo que ele é usado não só na Comrades, mas em outras provas da África do Sul.



Depois de pegar o kit, você vai ter um pavilhão inteiro com estandes de roupas, corridas no país, novidades do mundo running, souvenires, praça de alimentação, espaço de palestras e uma gigantesca loja da marca esportiva que estiver patrocinando a corrida com diversas peças de roupa com o logotipo do evento. Leve um “trocadinho” para gastar nesta feira, você não vai resistir, mas contenha-se em ficar batendo perna durante horas pois você terá um longo caminho no dia da corrida.




O Museu da Comrades

Você leu direito, a prova é um patrimônio nacional, tem até mesmo uma espécie de museu, com diversos artefatos doados pelos campeões, painéis, uma maquete interativa do percurso e muita, muita história registrada. Fica em Pietermaritzburg, vale a pena conhecer.





A noite que antecede o evento

Faça o que você tiver que fazer, mas acredite, você vai dormir pouco. É claro que você não vai passar a noite em um dos cassinos da África do Sul, mas pode esquecer que sono você não vai ter. A largada é às 05:30 pontualmente, então o mínimo que você vai ter que acordar é lá pelas 03:00, supondo que você está dormindo na cidade de largada. E o nervosismo, você acha mesmo que consegue pregar os olhos? Vai por mim, tente descansar o máximo que puder quando tiver um tempo.

E agora, deixo você no suspense, na próxima postagem vou contar como é enfrentar 90 Km de estrada, cruzar montanhas, passar o dia a base de gel de carboidrato e outras pequenas porções de alimentos, beber muita água, isotônico e Coca-Cola, tudo isso para percorrer sobre as próprias pernas a distância entre duas cidades na África do Sul...

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