sexta-feira, 5 de abril de 2013

Não me convidaram pra esta festa pobre

Ao invés de invadir o espaço deste ou daquele amigo nas redes sociais para criticar, resolvi deixar minha opinião sobre o (delicado) assunto aqui no meu blog: “Pipocas” em corridas de rua. “Pipoca” é o sujeito que corre sem inscrição na prova, seja ela gratuita ou paga. Em inglês o termo é “Bandit” (bandido) que dá uma ideia melhor de como deve ser encarada a prática. Mas aqui, no país governado por políticos que gostam de negar tudo, dizer que não sabem de nada, e mentir descaradamente, inventamos um termo mais agradável. Afinal, é engraçado chegar na empresa no dia seguinte e dizer “corri na prova como PIPOCA ontem”, mas se fosse lá fora teria que ser algo do tipo “I ran the race as a BANDIT yesterday”. Sentiu a diferença?

A questão é a seguinte: as provas pagas sofrem reajustes anuais nos preços que muitas vezes não são condizentes com a inflação e muito menos com nossos reajustes salariais. De um ano para outro, se já não bastassem nossos gastos essenciais terem aumentos abusivos, as atividades recreativas também passam pelo mesmo processo. Muitos organizadores de corridas tentam contornar o problema oferecendo mais “mimos” nos kits ou vantagens que antes não existiam. Ora, é o capitalismo, você vive neste regime econômico, por que está reclamando logo agora? Mude para um país de regime socialista se não te agrada! (mas cuidado com os que possuem ogivas nucleares). As empresas buscam maximizar os lucros e para tanto utilizam as ferramentas que possuem.

Voltando ao problema dos “pipocas”, muitas pessoas se veem ofendidas pelos preços das provas, sejam porque não podem ou não querem (na maioria dos casos) pagar. Só que o “pipoca” está na verdade invadindo um espaço que foi pago por outros corredores, que buscam organização, suporte médico, hidratação e até mesmo os itens prometidos no kit. Imagine que um “pipoca” passe mal durante a corrida, uma ambulância será deslocada para socorrer, porém se na sequência uma pessoa que pagou pela inscrição também precisar, talvez tenha que aguardar outra viatura para ser atendido.

Mas isto não é o pior, se correr no espaço pelo qual não pagou já é uma afronta aos demais, imagine então pegar um kit (medalha, lanche, isotônico) sem ter pagado a inscrição. ISTO É ROUBO! Deveria ser tratado como tal, mas além de não haver nenhuma força policial ou de segurança no local neste momento, ainda temos staffs cada vez mais mal preparados para filtrar os gatunos. Como se não bastasse, estas pessoas depois correm para as mesmas redes sociais e se vangloriam de fato de serem desonestos e terem furtado algo que não lhes pertence por direito.

O texto está pesado? Continue lendo...

Vou fazer uma comparação para você entender melhor: imagine que eu me sinta ofendido com o preço da Ferrari F12 Berlineta, algo em torno de 1 milhão de reais, com ou sem IPI reduzido. Não é por isso que eu vou sair batendo em toda Ferrari na rua só para protestar! Além do mais, a seguradora do meu carro não vai achar a menor graça nisso...

Agora vem a parte mais pesada: nem tudo que está sendo oferecido, é oferecido para todos. A Ferrari F12 Berlinetta é oferecida pela montadora italiana, mas há uma grande chance de não ser para você. Eu até acho que você merece uma delas, mas eles acham que não.

Se um ou outro organizador de prova quer cobrar caro, é a estratégia de venda deles, ninguém está interessado em fazer caridade e abaixar o preço para que todos possam participar. É a filosofia de empresas como a Apple e a própria Ferrari, então por que esta revolta toda com o valor das inscrições? Lembre-se: Capitalismo.

Não estou nadando em dinheiro, e não precisa muito para abortar uma prova quando vejo o valor da inscrição. Tenho uma política muito clara quando o preço de uma prova não me agrada: simplesmente vou correr em outra prova ou até mesmo na rua. Se eu sei que vai haver corrida no meu percurso e não estou inscrito, faço outro trajeto.

É mais bonito dizer “convidado eu fui, mas não quis ir”, do que dizer “invadi a festa dos outros e ainda levei salgadinhos para casa”.

Como diz a música cujo primeiro verso é o título deste post “Brasil, mostra tua cara”.

22 comentários:

  1. Legal seu texto, concordo plenamente.

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    1. Que bom saber que outras pessoas concordam.

      Abraço e bons treinos!

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  2. Rinaldo isto se estende outros esportes ja joguei tenis e larguei ,torneios caros , material importado, e quadras restritas, então troquei de esporte, mas no tenis pipoca não tem vez, o clube bloqueia na entrada !!! E o legal da corrida é que é livre , não compete mas tem a rua , parques pra correr... O esporte hj tem 2 faces a elitizada e o povão, quem tem corre todas quem não pode chupa o dedo !!!!

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    1. Com certeza a rua é livre, mas o que irrita é a falta de respeito com os demais corredores, especialmente por aqueles que insistem que tem direito ao kit pós prova. Já presenciei isto mais de uma vez, a pessoa chega a brigar com a organização dizendo que "tem direito".

      A ideia que eu defendo é: não quer pagar, não vá, ache outro lugar para correr e deixe o circuito para quem está regularmente inscrito.

      Abraço!

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  3. Muito bom o texto.
    Hoje em dia,sou muito seletivo com as provas, faço em média um prova por mês e priori as mais baratas e de graça. Não tenho coragem de correr de pipoca. Se acorda cedo no domingo e tiver com muita vontade de correr, vou procurar um parque diferente ou talvez que eu não conheça para correr.
    Um abraço e bons treinos!!

    Fernando Moura
    www.vivendoavidacorrendo.blogspot.com

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    1. Acho que a melhor atitude é esta que você indicou: selecionar. Tem gente que acha que só porque está no calendário tem que participar. Eu adoro as medalhas ao final, é um incentivo e tanto, mas não é por isso que vou fazer dívida para pagar prova ou usar meios não convencionais para aumentar a coleção.

      Abraço e bons treinos!

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  4. Muito bem dito, Rinaldo. Mas o problema, volto sempre a insistir, é que as caras encarecem as baratas, porque os organizadores, que não nasceram ontem, estão crescendo os olhos para cima dessa turminha endinheirada que entrou no mundo da corrida por puro modismo (bom que tenham entrado, qualquer que seja o pretexto). E isso está afetando inclusive provas de interior, que custavam tostões e já não custam mais. Qualquer um se acha no direito de cobrar caro até por bate-sacos muito "marromenos", sem qualquer mimo que justifique. Mas essa bolha já está estourando. As pessoas estão começando a enjoar ou a se darem conta de que estão pagando caro demais. Sustentar o "vício" está começando a pesar no bolso, porque dinheiro pode haver um pouco mais aqui ou ali, mas a Casa da Moeda é uma só. "Promoções-relâmpago" como a da tal corrida noturna mostram que nem todo mundo está topando os boletos de três dígitos. Felizmente.

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    1. Concordo com você, tem gente aproveitando a onda para inflar a bolha cada vez mais. Acho que a tendência é que aos poucos o preço se ajuste, como acontece com todas as ofertas. Aí a competição de valores passa a falar mais alto e aqueles que não tiverem como viver do lucro exagerado acabam saindo do jogo.

      Mas o que importa é correr, este é o nosso vício, o jeito é selecionar melhor as provas pagas e aproveitar os eventos gratuitos.

      Abraço e bons treinos!

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    2. Gostei da colocação Namiuti e da matéria.

      Qto ao termo "roubo", tecnicamente seria "furto",
      Furto: subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia móvel. Pena: reclusão de 1 a 4 anos, e multa. Art. 155 do Código Penal.

      Roubo:subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência. Pena:reclusão, de 4 a 10 anos, e multa.
      Art. 157 do Código Penal.

      Já qto aos "pipocas", minha opinião é a seguinte:
      http://reviewrun.blogspot.com.br/2012/10/corredor-de-verdade-vs-corredor-de.html

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    3. Legal Daniel, o termo mais apropriado é "furto" mesmo.

      Mas minha opinião permanece: se um evento é organizado e oferece estrutura, mesmo em via pública, pode ser cobrado desde que de acordo com as autoridades locais. É o mesmo que invadir shows, que geralmente ocorrem em local público também.Neste caso, quem participa sem estar inscrito é "penetra". Se a moda de entrar na corrida e retirar kit no final como todo mundo pegar, eu realmente não participo mais, especialmente pagando inscrições.

      Abraço!

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    4. Parabéns pelo blog, Rinaldo!... O assunto é polêmico, afinal nenhuma empresa é dona da rua.
      Quanto mais caros forem os ingressos, mais corredores irão pipocar!... Por mim, eu prefiro meus longões com amigos, ou até solitários, do que participar de certas corridas que viraram verdadeiras micaretas... a não ser que ganhe o ingresso ou tenha um belo desconto.
      Pagar mesmo, só as corridas principais: Maratonas e Meias da Asics, que realmente valem à pena... Agora, se eu estiver treinando no Aterro no mesmo horário de uma corridas, azar o deles... Não vou sair da pista! Podem me chamar de pipoca!... Esse metro quadrado que me circunda também me pertence!

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    5. Com certeza você é um cara seletivo, está mais do que certo escolher quais provas participar. A questão, pelo menos do meu ponto de vista, é respeitar aqueles que pagaram. Tenho certeza que você também não gosta de pagar por estas provas e depois ver que "os outros" também estão desfrutando do evento.
      Sobre o quadrado ser nosso, tudo bem, mas existem inúmeros eventos ao longo do ano (ex.: a F-Indy que acontecerá em breve) onde a Prefeitura separa o espaço para um organizador, o qual pagou por este direito. Teoricamente, os participantes que compraram o "ingresso" estão rateando este custo. Realmente não vejo problema em aceitar isto, acho que é justo, apesar de todos estarem maximizando os lucros.

      Abraço e bons treinos!

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  5. Coloquei no meu planejamento financeiro um gasto anual com corridas : inscrições, tenis, suplementos, etc. Chegando ao fim, já era !!! Para se ter saúde não é necessário frequentar festas/provas. Nada justifica o pipoca.

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    1. Realmente precisamos planejar as provas pagas, afinal os valores não são modestos. E muito bem observado, o que importa é correr, não é porque eu não fui nesta ou naquela corrida que vou deixar de praticar atividades.

      Abraço e bons treinos!

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  6. Muito bom Rinaldo.
    Nem entyro no mérito dos organizadores que já foi bem aboradado.

    Mas o "seromano", principalmente o brasileiro, quer tudo do bom e do melhor de mão beijada. Gostei da ideia de nominar os atuais "pipocas" de algo mais pesado. Se cola, alguns pensariam duas vezes antes de "roubar".

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    1. Sobre organizadores e afins, conversamos em outro post. Um termo mais pesado para a prática talvez fizesse com que alguns pensassem duas vezes no ato. Ou não.

      Boas corridas!

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  7. Oi Rinaldo,
    Perfeito.
    Acredito que juridicamente o direito de ir e vir que é individual não se sobrepõe ao direito do coletivo (dos milhares de corredores que pagam inscrição).
    Só a taxa pra fechar as ruas da Maratona de SP custa quase R$ 100.000,00. A orga paga pra ter exclusividade do local.
    Quem disse que não pode ir nem voltar? O pipoca que vá pela calçada, mas ele que é usar a prova não o percurso.
    Adoro cinema mas só vou quando tenho dinheiro.
    Saudações
    Harry

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    1. Muito bem, gostei da sua definição sobre o direito individual, é exatamente isto que muita gente não entende.

      Realmente as taxas são altíssimas, sem contar toda a estrutura que o fornecedor desloca para o evento. Está caro para todo mundo, por isto temos que ser seletivos na escolha das provas.

      Abraço!

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  8. Rinaldo, excelente suas colocações, idênticas as minhas. O melhor protesto é não participar e pronto.
    abração!
    Renato Mello
    Papo de Esteira

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    1. Olá Renato,

      Também li seu post e gostei do posicionamento. Acho que é uma coisa natural, se não dá para participar, ou se o preço pode ser considerado abusivo, respeitamos aqueles que estão dispostos a pagar. Protestar via falta de educação e civilidade não leva a nada.

      Abraço!

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  9. Concordo. Agora o Brasil paga o que paga e vive este capitalismo surreal porque gosta!!! A população é muito maior do que o número de autoridades governamentais. Mas como dizem, uma vez crescendo na jaula, adiquiri se o medo de viver fora dela.

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