sábado, 25 de outubro de 2014

Maratona de São Paulo 2014: Direito de Resposta

Sejamos justos, ao contrário de muita gente neste país. Este blog foi criado para compartilhar com os corredores coisas boas e ruins das corridas de rua, e o “compartilhar” neste caso surgiu muito antes do sucesso do Facebook e de outras redes sociais que se aproveitam deste termo. Então, como o objetivo aqui não é apenas dar bordoadas nos organizadores ou ficar me vangloriando de minha pífias conquistas como fazem alguns blogueiros, vamos dar ao organizador da Maratona de São Paulo, a empresa Yescom, o direito de responder minha críticas quanto à falta de água durante a prova. Afinal de contas:

“Posso não concordar com uma só palavra sua, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lá." Voltaire


No dia seguinte à prova, abri o site e ainda espumando de raiva, escrevi uma curta mensagem no Fale Conosco, diretamente para Infraestrutura, uma vez que não havia um item para reclamações:

“Mais uma vez notou-se a irresponsabilidade na organização da prova quanto à hidratação do atleta. O posto de Gatorade no Km 18 e o de água do Km 36 estavam desativados quando passei, o posto de Gatorade no Km 37 quase vazio, sem contar a distância absurda de 3 Km entre cada posto em um dia de baixa umidade do ar e muito calor. O resultado foi o que presenciei, diversos corredores caídos na Marginal Pinheiros e muitas ambulâncias no trecho final. Sou morador de São Paulo e já cogitei cortar esta prova do meu calendário mais de uma vez, acredito que agora não tenho mais opção, quando quiser correr uma maratona vou procurar em outra cidade, dado o descaso da organização quanto à segurança do atleta. Claudio”

Acredito que não fui o único a reclamar, e por este motivo já deveriam ter uma resposta pronta, que reproduzo aqui:

“Agradecemos o seu contato com a Organização.
Em resposta a sua solicitação esclarecemos que:
As suas observações foram encaminhadas a área técnica de prova para avaliação e verificação se houve um consumo excessivo ou distribuição além do previsto. O que constatamos até o presente, é que houve um momento de reposição e redistribuição para esse posto por conta de muitos atletas consumirem a água na ida e na volta no mesmo trecho.
Todos os postos de água foram super estimados mantendo a distância média de 2,5km entre os mesmos para que não houvesse falta de água. Foram disponibilizados 420 mil copos de água e na coleta final entre os postos ainda sobraram 120 mil copos disponíveis para conferência. Caso alguma falha seja constatada na operação deste posto de percurso tomaremos as devidas providencias junto a equipe responsável substituindo a mesma imediatamente. A titulo de informação foram disponibilizados 19 postos de apoio com água, ambulância e sanitários, 2 postos de Isotônico, 1 posto de Gel, 1 posto de batata (carboidrato), 10 mil quilos de gelo entre todos os outros serviços disponíveis no evento.
Qualquer dúvida, estamos a sua disposição.
Obrigado.
Atenciosamente,
Yescom/Organização Técnica”


Muito bem, vamos aos fatos:

1) Que bom que responderam, mensagem mecânica ou não, tem muita gente que nem isto faz.
2) Você já viu uma pessoa com sede? Que tal umas 600 pessoas com sede debaixo de sol de 38 graus e fazendo atividade física, ou melhor, que pagaram para fazer aquela atividade física? Pois bem, eu fui um dos que atravessou a pista e foi pedir água do outro lado, estava com os lábios rachando e sabe-se lá em que estágio de desidratação, portanto o que os corredores fizeram foi simplesmente preservar sua sobrevivência.
3) Acredito que tenham sobrado realmente estes 120 mil copos, mas vejamos: uma vez que o único ponto de abastecimento que passaríamos novamente desde o início da prova era o Km 4 / Km 39, porque não levaram a água dos outros postos, após a passagem dos corredores, para os que estavam na Marginal Pinheiros? Simples logística, simples pensamento... simples! Sobraram copos porque foram guardados, como deveriam ter sido feitos somente ao FINAL do evento.
4) No Manual do Atleta constavam os postos de hidratação, o que comprova que realmente estavam à 2,5 Km EM MÉDIA. Porém o pior trecho, sem sombra, com horário próximo do meio-dia para a maioria dos atletas, postos 34,1 e 36,5 estavam zerados, deixando a distância entre os Kms 31 e 39 um verdadeiro martírio. Nisto se baseia a minha reclamação.
5) Ao contrário de alguns políticos inescrupulosos, não pedi a cabeça de ninguém, não precisa mandar ninguém embora, basta fazer certo da próxima vez, para que a vida dos corredores não seja colocada em risco. Mesmo assim, a empresa enviou diversos links durante a semana oferecendo vaga de emprego para trabalhar em eventos...

O que me irrita de verdade não é a resposta da organização, como disse, acho que foram corretos em mandar sua justificativa. Agora vem o meu direito de resposta: o que tira qualquer um do sério é ler por aí que algumas pessoas “não viram a falta de água” e ainda dando conselhos imbecis como se fossem verdadeiras autoridades em corridas de rua, como por exemplo, se pronunciar sobre qual tempo o corredor deve fazer na prova para não ter este tipo de problema. O tempo limite da maioria das maratonas no Brasil é 6 horas, mais do que suficiente para que seja completada em ritmo leve. Mas os números abaixo mostram que a edição deste ano da Maratona de São Paulo foi totalmente atípica (este números não são oficiais, calculei a partir dos resultados publicados na listagem dos 42 Kms):

940 atletas completaram com 5 horas ou mais, de um total de 2942 concluintes. Proporcionalmente, 32% dos concluintes, quase um terço dos atletas, terminou a prova com mais de 5 horas de duração! Isto apenas prova que muitos “quebraram” e posso te dizer que conheço alguns que chegaram nestas marcas absurdas não por falta de treino, mas pelas condições extremas, pois são maratonistas com boa experiência na distância. Mesmo assim, sucumbiram ao calor e ao desgaste.

Pois bem, publiquei a resposta da organização, apresentei os números e dei o recado para quem se acha o máximo.

Neste texto, uma excelente comparação: Maratona de São Paulo X Maratona de Nova York. Ninguém quer que a Maratona de Sâo Paulo acabe, queremos apenas que a prova melhore.


Antes de acabar, uma estorinha final: voltei para a esteira na sexta e num trotinho regenerativo de 4 Km meu squeeze soltou a tampa e ambos, e e equipamento, tomamos um banho. Fiquei pensando “o pior é ter que ficar sem água até o final”, mas considerando-se o que passei no domingo, aquilo ia ser fichinha...

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